ÌNDICE DE TODAS AS COLABORAÇÕES PUBLICADAS NESTE SÍTIO
Para visitar cada tema isoladamente, é só clicar no respectivo título.
Para uma visita completa pode ir-se navegando pelos comentários ordenados um após outro.
.
Para visitar cada tema isoladamente, é só clicar no respectivo título.
Para uma visita completa pode ir-se navegando pelos comentários ordenados um após outro.
.
Joaquim Santos é um artista fotógrafo que associa às suas qualidades de interpretação visual a rapidez de reflexos dum verdadeiro “repórter” e documentarista que nunca nos deixa indiferentes perante a enorme variedade de temas que tem abordado ao longo da sua já repleta carreira.
Se acrescentarmos a essas valências a sua enorme familiaridade com as ferramentas de tratamento e divulgação de imagens que a actualidade tecnológica nos oferece, ficamos com a ideia que vale sempre a pena contemplar aquilo que nos dá a ver, seja qual for o motivo em apreço.
Não me é possível abordar aqui com o devido detalhe tudo o que me tem ocorrido ao longo dos tempos a respeito do fenómeno das "praxes académicas".
Certo é que qualquer fenómeno do mesmo tipo tem de ser encarado de acordo com o contexto em que se produz, ou seja, atendendo ao “caldo de culturas” que é denominador comum dos interessados/participantes respectivos. Se esse contexto for dominado por um vibrante sentimento agregador e determinado por um delicado equilíbrio entre o que é o sentido da festa e a dignidade livre dos participantes, tudo bem.
Aquilo que Joaquim Santos nos traz aqui é uma viagem através do fenómeno em causa que transcende o que vulgarmente aparece em milhões de “retratos” ad hoc espalhados pelos escaparates dos industriais do ramo.
As suas fotografias não carecem por isso mesmo, quanto à sua eloquência expressiva, de quaisquer esforços interpretativos. Conforme já disse noutro local a respeito deste seu trabalho “…é um testemunho penetrante e cheio de verdade sobre uma muito maior extensão dessa, apesar de tudo, mal conhecida realidade”.
Costa Brites/19 de Novembro de 2008
O conteúdo mais alargado do trabalho fotográfico de Joaquim Santos é visitável no seguinte endereço: Joaquim Santos-fotografia“…A praxe, o que quer que seja
Passando há dias por um pátio universitário, alargava-se em círculo um grupo de jovens mulheres, ou meninas estudantes, conforme preferirem. Tudo seria normal se no meio delas, por terra, não se acocorasse meio estendida no chão uma outra estudante, eventualmente manchada pela "vil" condição de "caloira".
Celebrava-se daquele estranho modo, mais um, para mim incompreensível "ritual de humilhação", peça integrante dessa confusa e fragmentária mitologia a qual chamam "praxe".
Tolerância, paciência e a "dificuldade" sentida (ou vergonha, ou receio, ou... medo?) de rejeitar a desconfortável situação em que se encontra marcam a atitude da jovem que sentirá, por certo, grande alívio quando "tudo aquilo" tiver terminado.
A praxe poderia servir até como prática iniciática ao funcionamento imprevisível e contraditório da Escola – metáfora do país – naquilo que têm de menos bom, mas receio bem que nessa condescendência forçada estejam amassadas a submissão moral e a indiferença cívica que alimentam o "deixa andar" e o "quero lá saber".
Queria trazer-vos, por isso, alguns recados simples:
Apreciai o melhor possível a liberdade fugaz que a juventude vos oferece sem deixar escapar esse perfume raro que se esgota, para tantos, à entrada da idade adulta, mas sem deixar de pensar e valorizar o dia com aquisições seguras, com uma genuína vontade de aprender algo daquilo que pode não vir nos livros.
Direi, a cada um de vós para terminar por esta vez, aquilo que me apeteceu dizer à menina acocorada no chão, naquele dia de outono universitário:
“…Com festas e bolos…
Quanto ao sentido hipnótico dos festejos das queimas de fitas (das tradições…) que se afirmam cada vez mais industrializados, orquestrados como bons negócios, é bom que penseis:
Não estará a vossa Escola a tornar-se um pretexto para aproveitamentos medíocres e duvidosos, no seio de uma sociedade sonolenta, de instituições cúmplices que não cuidam, nem vêem nem avaliam, e de famílias perdidas em serões televisivos de grande audiência e no "tenho muito que fazer" e no "não quero saber das coisas dos estudantes para nada"?
Não estará a Academia e a Cidade e a Escola deixando que se instale uma enorme máquina que progressivamente toma conta, se assenhoreia e explora uma juventude entregue a si mesma, sem ter noção para onde navega, tolerantemente submissa e encantadamente alienada?
Não seria tempo, passados todos estes anos de democracia, que a Festa fosse mais essencialmente dos alunos estudantes, mais chegada a valores positivos, à cultura, ao encantamento juvenil e à beleza da idade, e não tanto um negócio de moda, de alcoóis à bruta, de mau gosto à descrição, de gente alheia a tudo que deveria ser a memória dos valores que valem, porque não se resolvem e esclarecem no oportunismo do barulho e dos patrocínios?...”
Publicado no Diário de Coimbra em 7 de Novembro de 2002
..
Se o leitor se interessa por motivos de natureza cultural e não está a pensar deslocar-se em breve a Anadia, acho melhor que mude imediatamente de ideias.
O tão conhecido consumismo faz as pessoas viajar muitos quilómetros (se preciso for, de avião) não levando em conta coisas aqui tão perto e de tão grande valor.
O Museu do Vinho da Bairrada é um centro cultural de elevado nível, dotado de arquitectura notável, espaços e infra-estruturas muitíssimo respeitáveis alojando, para além das visitas temáticas permanentes que propõe em conceito de modernidade e avanço tecnológico, um programa sustentado de valiosos acontecimentos temporários.
Estas linhas fazem parte de uma notícia sobre artes plásticas publicada no Diário de Coimbra e no meu blog dedicado a esses assuntos, conversas de pintor, e merecem figurar aqui em atenção ao elevadíssimo número de visitantes que tem este blog por todo o mundo de língua portuguesa e ao importante centro cultural da cidade de Anadia, evidentemente.



Um dia a minha avó Cristina, mãe do meu saudoso pai, chamou-me junto de si preparando com o jeito de falar que lhe era muito próprio uma daquelas encenações do sentimento que tanta perturbação lançavam no meu espírito de adolescente.
Tinha junto de si nada mais do que um conjunto de objectos de loiça antiga: pratos, travessas e uma graciosa terrina redonda. Do que se tratava era de me dar posse dessa tão frágil como preciosa herança sentimental.
Minha avó tinha passado parte da sua juventude na África do Sul e, durante algum tempo, associei essa loiça a uma remota noção de requintes britânicos. Mas não, olhando para a parte detrás de cada peça, reparei mais tarde que era loiça bem portuguesa, feita em Sacavém, agora seguramente com não sei quanto mais do que 100 anos, embora com temas decorativos oriundos de longes terras.

Raramente abro as portas dos móveis onde se guardam, embora não tenha receio algum de perder ou quebrar um ou outro daqueles objectos. Se os não perder eu a eles, perder-me-ão eles a mim, o que dá no mesmo, e nenhuma diferença faz tal coisa ao incessante e perturbado mundo que por cá fica.
Quando era rapaz novo acompanhei turistas estrangeiros e para as afinidades especiais que certos encontros propiciavam (e não foram poucos…) havia sempre na minha bagagem de viajante um pequeno agrado trazido do Portugal sentimental e mais profundo: uma garrafa de Porto, um Moscatel de Setúbal, barros de Estremoz ou de Barcelos, uma jarra ou uma travessa do Juncal, um prato de Alcobaça, um altarzinho da Nazaré ou um barquito em miniatura de Peniche.
Para os cavalheiros que cheiravam a Gitanes ou a charutos: mais bebidas. Para as jovens francesas que cheiravam a perfumes Galion (oh, que saudades!...) mais cerâmica, mais ovos-moles, mais paninhos com renda!...
Perdi por isso o tino das colecções. O que fui juntando ao sabor de acasos risonhos foi para dar, e não tenho pena nenhuma disso. As alegrias que eu tive, os sorrisos que recebi em troca, meu Deus!...
O maior número de peças de loiça de Coimbra que comprei até hoje, foi para oferecer.
Era bom que esse hábito vingasse junto dos portugueses que viajam lá para fora, sobretudo, onde é prenda de valor.
Se não formos nós a ajudar os nossos solitários artesãos do povo e as antigas indústrias tão nobres, quem poderá fazê-lo?
Que netos ouvirão o sereno discurso do nobre sentimento, se se perder essa viva corrente de lembranças?
E toda aquela multidão de figuras exóticas desenhadas em loiça, em colchas e tapetes, herdada da gesta dos navegantes em busca de pó de canela e peças de seda, que será delas se a mão que as pinta ou tece se esquecer do seu formato, do seu mistério, da sua confusa abundância?

.
Túlia Saldanha nasceu em Perêdo, Macedo de Cavaleiros em 1930.
Foi sócia do Círculo de Artes Plásticas desde 1967 e fez parte do Corpo Docente desde 1974.
Algumas exposições colectivas:
1968
Em Coimbra:
− no Museu Machado de Castro;
− no CAPC;
Em Amarante:
− no Centenário de Amadeu de Sousa Cardoso
1971
Em Coimbra:
− “A Floresta”, no CAPC;
No Porto:
− “O Presente”, na Galeria Alvarez;
Em Óbidos:
− na Galeria “Ogiva”
1973
Em Coimbra, no CAPC:
− "Minha Coimbra Deles" e "Aniversário da Arte".
1974
"Projectos Ideais" na Sociedade Nacional de Belas Artes (S.N.B.A.) em Lisboa
1975
"Semana de Arte na Rua” em Coimbra
1976
"Alternativa Zero" em Belém, Lisboa,
Encontros Internacionais de Arte na Póvoa de Varzim
1977
"Mitologias Locais" na S.N.B.A. emLis boa,
Cooperativa Árvore no Porto,
Encontros Internacionais de Arte nas Caldas da Rainha
1980
Participações:
na SACOM 2 Museu Vostell em Malpartida de Cárceres, Espanha,
"Panorama das Galerias" na Galeria de Arte Moderna em Belém,
"a Caixa" na Galeria Diferença Lisboa
1981
"25 Artistas de Hoje" no Museu de Arte Moderna na Universidade de S. Paulo Brasil, "100 Horas a Desenhar" na Galeria do Chiado em Coimbra
1982
Bienal Internacional de Vila Nova de Cerveira
1983
"30 Horas a Desenhar" Instituto Alemão em Lisboa,
"Exposição Nacional de Desenho" na Cooperativa Arvore, no Porto,
"O Papel como Suporte" na S.N.B.A. Lisboa
1984
"Anti-Heróis, Malditos e Marginais" em Lisboa;
"Pipxou" − Inverno 84 − Galeria Diferença Lisboa
1985
Intervenção no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian Lisboa
1986
II Bienal Nacional de Desenho/85 na Cooperativa Árvore, no Porto;
Faculdade de Direito de Coimbra;
“Agitarte” em Aveiro;
Casa Museu Teixeira Lopes em Vila Nova de Gaia;
Faculdade Psicologia Universidade de Coimbra.
1986
Festa para Ernesto de Sousa;
Como elemento do Grupo de Intervenção do CAPC, participação nos Encontros Internacionais de Arte Caldas da Rainha,
em Coimbra, na S.N.B.A.,
no IADE, no Café Brasileira em Lisboa, etc.
Exposições individuais:
1969, 70, 71 CAPC Coimbra
1974 Galeria Dois no Porto
1976 no CAPC
1979 Gal. Diferença Lisboa
1982 no CAPC Coimbra
1985 na Galeria Diferença em Lisboa
1986 Teatro Gil Vicente Coimbra.
1986 Galeria QUADRUM, Lisboa
1987 Desenho e Pintura Macedo de Cavaleiros
1987 Galeria Almada Negreiros, (aquisições Recentes) S.E.C.
1987 Abertura do Museu de Arte Moderna (Casa de Serralves), no Porto.
.
Fotografar o painel de João Abel Manta que se encontra no jardim (???...) da Associação Académica de Coimbra, no seu conjunto, é uma tarefa difícil.
As luzes, as sombras, a desarrumação geral à sua frente, o "horizonte" deprimente, produzem um resultado sempre problemático.
Já tentei mais do que uma vez, mas terei de regressar ao local e tirar proveito de condições de luz natural um pouco mais propícias. Tratar do jardim e organizar a paisagem... está para além das minhas posses...
O que junto abaixo é apenas para dar uma ideia:




.
O “trombinoscópio” é uma invenção (entre muitas outras) de um engraçadíssimo conjunto de músicos-actores-animadores, que esteve presente na baixa de Coimbra, no Largo de Sansão (nome antigo e muito mais engraçado que um histórico “8 de Maio”), no dia de hoje, 1 de Março de 2008, no contexto das iniciativas da Semana Cultural da Universidade de Coimbra.
Os artistas são: Thierry Daudé (Trompete), Alfred Spirli (Percussão), Daniel Malavergne (Tuba), e Philippe Neveu (Oboé Languedócio).
.

Tirei muitas fotografias dos rapazes, que improvisam música ao mesmo tempo que aproveitam um talento particularmente desenvolvido para interagir com todo o público ali presente.
Hoje não posso pô-las todas aqui, porque já é tarde, mas um dias destes, quem sabe...
A manhã terminou feliz para nós, com um simpático almoço no “Salão Brasil”, onde além da refeição, também fomos “servidos” com música gravada de Rão Kyao (o seu formosíssimo “Porto Interior”, que tem assim ares de China e Portugal casados em harmonia doce !...).
O Salão Brasil, a entrada lá para cima é ali ao lado direito:

.
Muita gente que usa (e usou...) capa e batina, passará ao longo deste trecho da Avenida Sá da Bandeira, à frente do Teatro Académico de Gil Vicente e do complexo de
instalações da Associação Académica de Coimbra, não tendo reparado atentamente nos painéis de João Abel Manta, de 1958, que ali se encontram aplicados.
É possível, e é de lamentar que uma tal coisa possa acontecer, até porque os sete painéis do grande artista (merecedor de destaque no elenco dos maiores da História da Arte em Portugal, e não apenas do seu século) é uma obra dedicada "à evolução do traje académico"!...


O tratamento desta questão deveria ser parte de uma apreciação especializada e profissional (que não cabe aqui fazer-se) de todo o complexo do TAGV e da AAC, conjunto monumental muito significativo do património recente da cidade de Coimbra, todo ele precioso para a sua actualidade cultural, instalações e serviços activos que conviria manter no mais elevado grau de aprumo funcional, técnico e estético.
O Teatro Académico de Gil Vicente é uma entidade pública sob a administração da Universidade de Coimbra.
A Associação Académica de Coimbra e todos os seus organismos autónomos são entidades do mais elevado interesse para estudantes e não estudantes e devem merecer a maior atenção de todos nós, cidadãos de Coimbra e de fora dela.
Se servem a cultura como têm servido e se pertencem à memória de enriquecimentos culturais de tanta gente que os tem frequentado, é bom que continuem a poder fazê-lo.
Se servem a cultura, servem-se do apoio de todos nós, alunos que fomos e pais de outros alunos ou simples cidadãos contribuintes que olhamos as coisas com o direito legítimo de ver o que está bem e o que está mal.
O aspecto exterior que evidenciam estas casas, estes espaços e o seu adorno artístico não é indício de grande cuidado, nem do melhor nível de atenção.
“O que está bem, bonito parece”, é uma observação simples, com a vulnerabilidade natural de tudo o que diz o povo, mas nem por isso verdade menos respeitável.
O que é que funciona mal, ou o que é que não funciona ali?
Numa data posterior, continuarei a observar, com mais detalhe, os simples aspectos exteriores da degradação e do descuido que são evidentes.
Dentro, ao âmago das questões, porventura mais candentes, não me compete chegar.
Cada um que assuma as suas devidas responsabilidades.



.

Saio de manhã a caminhar através da manhã delicadamente fresca de um Agosto de cinza e luzes quasi-outonais.
E as paisagens que visito são iguais à ternura do desapego, à saudade das coisas eternas, à distância magoada da tristeza.
A paisagem de hoje, é dentro: não tem horizontes que seja preciso tratar pelo nome.
.
.
Olho simplesmente as ervas que passeiam por mim à beira dos caminhos; todo o ser é igual à sua transcendente e ignota humildade.
Mortos seremos todos como flores secas; e vivos somos um tanto ou quanto iguais nelas em tudo, excepto na ferocidade e no desejo.
.
.
Debruço-me entre o vago suor da fresca manhã estival e a pequena brisa que me traz notícias do país de Outubro: olho de mais perto a preciosidade de uma flor silvestre entre muitas outras. O meu coração bate, não sei quantas vezes, e nenhuma pena tenho de me ir assim, entretanto, aproximando da morte.
.
.
Os canaviais são outra faceta das paisagens anónimas de antes e de nunca.
As reminiscentes hortas semi-abandonadas; os poços de tijolo a esmo sem reboco, povoados de musgo e de insectos indecifráveis com milhões de anos; poço aqui tão esplêndidamente inútil que dentro dele ganhou presença viva uma árvore que fica assim parecida a tantas obras de arte de que não fala o tempo, servindo apenas para que nelas poise um olhar breve e casual
.
.
um muro tão solitário que jamais serviu para que neles se encostasse, tremente, a ilusão de namorados.
.
Fecho a caminhada passando por algumas flores mais intensamente coloridas.
Entre elas as sardinheiras, cuja cor e presença não desistem nunca, fazem-me lembrar o meu querido avô, por ser a flor que preferia.
.
.
.
.
As sardinheiras, flores que olho pensando na limpidez dos corações generosos: sempre de pé no seu posto, prontos para dar tudo, seja qual for o tempo e a estação.

.
Fomos hoje passear à Serra, andámos por estradas incríveis e o que nos valeu foi a maravilhosa chuva que criou aquelas cortinas imensas que nos permitem deixar de ver os pequenos e vulgares acidentes da paisagem, e passam a deixar-nos entender toda a incomensurável natureza das coisas.
.
.
As serras, as verdadeiras serras, são todas da minha infância.
Saturadas de aromas e de mistérios não cabiam nos mapas, não tinham fim nem princípio.
A minha terra estava cercada de serras por todos os lados, por imensos vales ao fundo dos quais havia sempre um rio fresquíssimo que corria ali ao sabor da eternidade.
Uma ponte era como um grande brinquedo medonho, uma caixa construída por grandes vigas de ferro de várias espessuras, com enormes cavilhas arredondadas e pavimentada com alcatrão todo esburacado.
Apoiava-se em enormíssimos pilares de pedra ovalados e quando as barragens foram construídas toda aquela imensidade de ferro pintado de tinta toda velha e encarquilhada começou a ser engolida metro a metro, centímetro por centímetro, pela água que subia implacavelmente.
Havia uma pequena localidade que ia ser engolida, e no mercado, na loja dos Senhor José Matias e à saída da Igreja toda a gente falava no enchimento da barragem como se fosse a mais extraordinária tragédia de todos os tempos.
Lembro-me de ver, um Domingo de manhã, um homem que estava deitado na cama, numa certa casa à beira da estrada, que estava a ser engolida pela água.
Fui lá com o meu avô, que foi levar algum alento e coragem àquele homem velho e desesperado que não queria abandonar a sua antiga e modestíssima casa.
As pernas da cama já estavam bem metidas dentro de água, e todos nós sabíamos que ela não ia parar de subir, porque tínhamos feito um risco no alcatrão e passado uns minutos o próprio risco já tinha sido coberto.
Quem jamais poderia esquecer-se de acontecimentos tão espantosos como estes, de lágrimas tão incómodas e de palavras tão desesperadas como as daquele homem vendo o seu mundo sumir-se debaixo de um rio que crescia impiedosamente numa plácida e soalheira manhã de Domingo?
.
A Serra da Lousã é assim, entre moinhos que não são de Cervantes nem servem o combate de delirantes Dom Quixotes. Há pequenas aldeias onde vivem estrangeiros, retirantes da Europa central que rejeitaram sua glória e seu método. Fazem-me pena as suas crianças, portugueses de futuro incerto pelo isolamento e pela estreiteza de horizontes. Contradições nada condizentes com a altitude e a paisagem...
.
A Serra da Lousã, como todas as outras, tem imensas histórias contáveis dentro da desmedida do seu dorso castanho carregado de mil e muitos verdes, todos diferentes.
Parece-me muito, mas muito mais pequena que as serras da minha infância.
O seu multifacetado carácter de serra de muitos episódios e acontecimentos, é reforçado pela variedade da sua flora, pela variedade de paisagens que dentro dela se desdobram em cenários tão diferenciados.
.
A torrente de águas cantantes, os fetos, as flores, a variedade amável dos verdes aqui estão que não me deixam mentir...
Ora aqui temos uma aldeia de xisto completamente diferente de uma imensa quantidade delas que pelo interior serrano nos mostram a angústia dos seus telhados afundados, as janelas e portas escaqueiradas pela ventania da desertificação. Um luxo onde vivem senhores doutores de Coimbra que compraram no bom tempo e que restauraram amorosamente o seu refúgio - cofre de silêncio metafísico...
.

.
Passo pelas grades de um jardim de infância.
Sou atraído pelo galrear alegre das crianças, pelo irresistível apelo da sua pureza de alegria e juventude.
Puxo da minha máquina/bloco de apontamento e tiro duas fotos.
Ai de mim!.... Oh infeliz, oh réprobo, oh mal aventurado!...
Sou rodeado instantaneamente por um grupo de vigilantas, cheias de zelo proibitivo e de argumentos esmagadores.
- Está bem, desculpem, está bem, eu prometo que não torno!...
Apaguei as fotos (duas fotos!...) ali logo na presença enérgica da única vigilanta que sobrou para dialogar (desconfiada e azedamente) comigo.
Se eu fosse criminoso preparando um roubo de crianças, teria fotografado de longe, à socapa, com uma lente de longo alcance. E se quisesse mesmo roubar, para que diabo ia fotografar antes???...
Se eu fosse fotógrafo profissional namorado da prima do vizinho de não sei quem, ia lá dentro e podia fotografar os meninos todos, com nome e morada, e os papás até me pagavam.
Não sei se isso me daria direito a aprisionar o corpo (ou a alma..) deste ou daquele menino.
Entre fotografar um bando de crianças vestidas todas de igual, anónimas no vozear cristalino da sua alegria colectiva, e roubar uma delas, levá-la para longe de avião, sumi-la do doce afago de seus amorosos pais… vai uma certa distância!...
O que ressalta de tudo isto não é o zelo de quatro ou cinco vigilantas, nem o perigo real que a situação envolve.
O que ressalta é a desconfiança radical, a vulnerabilidade das pessoas isoladamente, os estereótipos duma coisa que se não sabe, mas se pressente e é esmagadora.
A raiz do medo em suma, a planta funesta que seria desejável extirpar do coração do mundo, a golpes de ternura e de justiça; a golpes de paz e de amor pelo próximo.
Devoradores de telejornais, aceitamos placidamente todas as reportagens indiscretas (frequentemente obscenas e até imorais) da televisão.
A televisão é o poder.
Está acima de todos os outros “observadores” da realidade.
Pode entrar sem bater à porta, surpreender os pobres na sua vergonha de modéstia, os doentes no seu desconforto doloroso, aqueles que choram os seus mortos para exibir indecorosamente a sua dor e o seu irreparável desgosto.
Um rapaz como eu não pode assomar-se a um jardim infantil, comovidamente escondendo a lágrima saudosa de seus netos, sem que as eficazes vigilantas vejam em mim o pedófilo ameaçador, o raptor iníquo, o infamante violador.
Oh pobres almas, Oh triste mundo!...
Passear Coimbra foi passar um fim-de-semana a Lisboa.
Significa isto que “a cidade” é, mais do que um conjunto de lugares, um encadeado de vivências e percepções.
Esta e as outras Coimbras (porque há muitas: todas iguais, todas diferentes, como as pessoas que nelas habitam) encontramo-las onde soubermos e onde nos seja possível estar e aprender convivendo.
As cidades são amores difíceis.
Impõem-nos uma disciplina de dedicações múltiplas: um querer sabê-las, um querer vivê-las à medida dos meios de que dispomos.
E tempo que permita construir a memória.
E vozes que se cruzem com a nossa.
Mais do que morarmos nelas é necessário que morem elas em nós e tenhamos o privilégio de conhecer a suas múltiplas faces, as mais hospitaleiras e felizes, ou as mais contraditórias e dramáticas.
Na Cervejaria Trindade pode fotografar-se à vontade. Eles lá sabem porquê! (ver adiante, texto sobre os burocratas anti-imagéticos do Metropolitano de Lisboa)
Os grandes hipermercados da arte e da cultura, parece estarem cansados.
As políticas orçamentais (Oh, Deus meu, que de fortunas se poupam neste país em cultura e artes − até me espanta que haja deficits!...) fazem com que certas casas outrora repletas de acontecimentos estejam frequentemente inertes ou a meio-gás. Outros locais, por seu turno, prometem bem mais do que aquilo que deveras dão. (Isto é, não quer dizer que se gaste menos; gasta-se é doutra maneira, com outras coisas e com outros "protagonistas", como sabemos, não raro, até muito mais...)
É tempo, portanto, para revisitarmos aquelas coisas que são sempre novas, ou seja: as que fazem parte da cultura perene; lá, onde mergulham as raízes da memória colectiva.
Do terraço do zimbório da Igreja de Santa Engrácia, também oficialmente Panteão Nacional, olhando muito para lá de Santa Apolónia, da Madre de Deus e de Xabregas, descortina-se aquela ponte compridíssima que tem o mesmo nome dum dos homens que mereceu cenotáfio (ou memória de corpo ausente) no mesmo Panteão: Vasco da Gama!...
Por este tempo, em Lisboa, é quando florescem as coleantes árvores da flor azul.
São mais que bonitas: enfeitiçam a paisagem com o sua cor exótica atrevidamente tropical, que não é tão serena nem tão profunda como o azul do céu; o que não é para admirar porque nada há que possa comparar-se à gloriosa profundidade do céu.
A árvore das flores azuis, que em Lisboa aparece ao mesmo tempo que a Feira do Livro, sabe surpreender como poucas; até o seu nome, inventado pelos Índios da Amazónia, é colorido e apetece dizer: Ja-ca-ran-dá!...
Para dar um aspecto de cultura a isto se dirá que o Jacarandá mimoso, ou Jacaranda mimosaefolia, é da família das Bignoniaceas. Mas mais não digo que me posso enganar.



.
Domingo de manhã aponto para um objectivo muito apetitoso: uma visita com vagares e olhos bem abertos à estação do Jardim Zoológico, decorada com temática a propósito em azulejos da autoria de Júlio Resende.
É um encantamento.
Todo o espaço, paredes e até o próprio chão, estão recobertos com mil e uma sugestões que nos levam de visita ao esplendor da selva. A calçadinha à portuguesa vem fazer companhia aos azulejos, acrescentando sugestões de passear no verde selvagem, em veredas e figuras que se colam aos nossos passos, convidando-nos a reviver uma desejada infância contornando por aqui, correndo por acolá.
Uma selva perigosa, cheia de susto e de animais ferozes? Não!...
Esta selva tem tudo na cor, no espanto, no canto musical das aves e no seu esvoaçar aberto de penas macias e grandes esperas ao poente.
Uma arca de Noé com flores e todo o género de adereços naturais ali, onde é fácil esquecer que estamos debaixo da terra, passando os comboios de tantos em tantos minutos.
Uma certa distracção provinciana, ou o entusiasmo de pensar que o mundo − nem que seja por instantes − pode deixar de ser aquele sítio chato em que o cidadão se não é tramado assim, é tramado assado, impele-me a olhar livremente, puxando da tal maquineta fotográfica com que faço este “passear Coimbra” e vai disto:
fotografia para aqui, fotografia para acolá, flash quando é preciso, com toda a alegria e sem temor!...
O pior, é o mais mau!
Há dezenas de anos que ando de Metro em Lisboa, nunca vi um daqueles Senhores fardados chamar a atenção de quem passa para os azulejos:
- Meus Senhores, reparem só um instantinho, temos aqui uma obra de arte para mostrar a toda a gente: Vejam só estes azulejos, uma maravilha!...
Nunca, jamais, em tempo algum.
Mas naquele Domingo de manhã lá veio não um, mas dois fulanos (um à paisana, primeiro, outro fardado, depois) dizer-me que não podia tirar fotografias (“…por causa dos direitos de autor!…”)
Direitos de autor? Umas tanas!...
Pelo que lutam estes extremosos “defensores de direitos” é por uma noção redutora e burocrática da cultura. Uma cultura com açaimo, onde os direitos são os de não olhar para as coisas, afirmando uma posse sem horizontes de objectos que se não estimam, nem divulgam, nem amam.
Bem como toda a obra do Metro (que a princípio toda a gente chamava “o centímetro”, porque era pequenino) também ajudei a pagar os painéis. Para não falar nos bilhetes e passes, que já paguei muitos, para poder viajar de Metro, um sítio tão público que é como se estivesse ao ar livre, como nas praças e ruas do meu país!...
Havia, apesar de tudo, uma tonalidade hesitante no recado repressivo dos fulanos que mandaram parar com as fotografias. Estariam com pena das minhas ingénuas fotografias, ou estariam com vergonha de importunar um cidadão em pleno exercicio dum legítimo encantamento?!...
Vá lá saber-se...
Alguém os deve ter mandado.
Alguém que nunca deve ter olhado para os azulejos rachados, manchados, sujos, partidos e descolados que já por ali abundam!...
Defesa dos direitos de autor? De que autor?
Eu sou autor do meu olhar e sou cidadão deste país e não devo nada ao Metro, nem aos Administradores que ganham tanto que nem devem precisar de andar de Metro, mas mandam dar ordens sem pés nem cabeça que estragam uma manhã a quem tenha um minuto de alegria dourada tirando recordações de uma parede em Lisboa, para poder mostrá-la aos amigos em Coimbra.
Direitos de Júlio Resende? Hum, duvido muito!...
O artista, se soubesse o amor com que olhei a obra de sua autoria, ia regalar-se, tenho a certeza.
E as fotos de recordação, ia vendê-las, não querem lá ver?!...
Oh Senhores Administradores, se aqui estivesse a grande poetisa Natália Correia dir-vos-ia:
“…Oh esfomeados do sonho
A Poesia é para comer…”
…
E eu acrescentaria:
“…Oh burocratas néscios
O que é belo é para toda a gente ver!...”
| |||
.
Para passear Coimbra, hoje, não tive de andar muito.
Fui até Santo António dos Olivais, que fica a um tiro de espingarda dos sítios onde moro, santuário de emocionadas devoções, igreja bonita que já foi singela e solitária e que agora é cada vez mais um local descaracterizado, como tantos.
.
Esta imagem é, ainda assim, a visão mais aceitável do conjunto actual em que a finura branca do santuário se vê crescentemente subalternizado pelo empolamento de tudo aquilo que tem sido acrescentado à sua volta, esquecendo nós propositadamente o tolerado e sacrossanto caudal de veículos motorizados ali sempre presente quer em estacionamento quer em deslocação, o seu pesadíssimo viaduto, etc.
As casas velhas caiadas deram lugar a "uma coisa" amarelo-barulhenta com "aplicações" vermelhas e variedade de adornos que são o acompanhamento que poderíamos imaginar de menos adequado para aparecer ali.
As oliveiras, árvores que "dão luz ao mundo" tal como diz a adivinha popular, fazem neste declive coberto de relva pouco verde o favor de ocultar parcialmente essa desconfortável presença, dando a mão a um sem número de razões da tradição cultural mediterrânica e cristã que se associam à índole do local, ao seu nome e aos seus significados.
.
.
Há uma vez por ano em que a tradição popular insiste em fazer-se sentir em torno deste santuário contra ventos e marés, pondo de pé a romaria do Espírito Santo que acentua de forma radical a alacridade contraditória vigente em todo aquele espaço.
Ainda assim, penso que a circunstância desconfortável de ela aparecer ali só uma vez por ano nada tem de reprovável, muito embora seja sobejamente clara a pouca adequação do espaço disponível para o efeito.
Para obviar a uma tal questão no seu plano global, teria que ter sido pensada em tempo útil, rodeada de empenho legítimo por quem de direito. Mas isso...
As pessoas que promovem a romaria, aliás, estão tão habituadas à exiguidade, ao acantoamento, à falta de condições, que se assim não fosse a romaria não seria o que é.
O povo que a frequenta, aliás, também iria estranhar e, quem sabe, já nem lhe daria o valor.
.
.
Dito o que está dito, faltava-me passar o pórtico, subir as escadas, e completar a visita observando o muito que ali há para ver.
.
Chegando lá acima, ao espaçoso terraço que ao lado da igreja se debruça sobre o cemitério adjacente, esquecem-se por encanto todos os aleijões e desacertos que vão cá por baixo atravancando a vista e o entendimento do lugar.
O horizonte que se abre à vista de quem ali vai é tão aberto e magnânimo que não se contam os minutos olhando os longes e apreciando como é enorme a beleza do DIA, cortina passageira de intensa claridade azul que nos esconde da grande noite sideral.
.
.
Passei vezes sem conta por Santo António dos Olivais antes das obras feitas, e é como aqui o "apresento" que o "via".
O sítio já não era (nem bem, nem mal) como está no desenho.
Na mente contudo fazia-o assim, de cal branca e céu despojado como certamente se viu no dia em que o "poverello" de Assis se desvestiu completamente perante seu pai Pietro di Bernardone, devolvendo-lhe o resto de tudo o que possuía, para se entregar a outro mundo - o seu mundo.
Não, não tenham medo que não estou a confundir António com Francisco: António é um e Francisco é outro, fazem parte da mesma ordem de imagens que dão corpo a uma certa ideia de catolicismo, terá sido um português, terá sido outro italiano, e não é aqui que se vai querer apurar a verdade verdadinha de um ser "nosso" e de o outro ser "estrangeiro".
Acaso levarão as almas bilhete de identidade ou passaporte para poderem entrar na imensidão dos céus? Acaso haverá por lá "santos portugueses" e "santos italianos"?
Acaso trataram disso os anjos guardiães do céu no dia em que, em sua glória ou suas penas, terão batido António e Francisco, pessoas como qualquer de nós, às portas do paraíso?!...
.
Os carrinhos de choque da minha infância, quando - uma só rara e espaçada vez por ano - a Feira de Março passava por Leiria, não eram propriamente o paraíso.
Mas tudo junto, o carrossel, o circo, as tendas brancas que vendiam toda a sorte de coisas e brinquedos coloridos de barro também, o poço da morte com a sua encenação assustadora, as barracas de tiro com umas raparigas que cheiravam demasiado a perfume e não ligavam a garotos pequenos como eu, se não eram o paraíso, andavam lá perto!...
.
No meu tempo, não havia Tânias e a barraca das farturas era só a "barraca das farturas".
Entrava-se lá para dentro a flutuar numa nuvem estonteante de açúcar, canela e massa frita em azeite, e a luz do dia filtrada pela lona colorida da cobertura dava aos rostos a cor de uma alegria surpreendente, inteiramente distinta da que se havia visto antes.
Outro pequeno detalhe confortavelmente inesquecível era o chão de terra frequentemente amaciado pela chuva de Março, completamente recoberto com serradura, que acrescentava ao ambiente modesto apenas mais um aroma riquíssimo, eco distante de pinheirais que não ardiam!...
.
.
Este banco pós-moderno de ferro cinzento triste, posto à ilharga da elegante Capelinha do Cruzeiro, que contém o valioso Cristo de João de Ruão, conhecido por "Cristo dos Olivais", nem é confortável para quem nele se senta nem vale uma pitada de açucar das farturas da Tânia.
Quanto a ser a escolha certa para figurar no "equipamento urbano" do santuário de Santo António dos Olivais, creio que nem tira nem põe na imensa variedade de objectos que por ali há, em acerto ou desacerto de embelezamento e comodidade.
.
.
Uma casualidade feliz fez com que tivesse encontrado uma senhora minha conhecida, activa nas práticas de devoção daquela igreja.
Perguntou-me com toda a simpatia se queria visitar a sacristia, ao que respondi afirmativamente, por saber que é local de ver e rever, pela qualidade e valor do património ali existente.
.
.
Tive o prazer de ser apresentado a Frei Adriano Zorzi, religioso oriundo de Itália que comigo conversou com imensa gentileza e me ofereceu um conjunto de documentos informativos e imagens respeitantes àquele respeitabilíssimo monumento.
.
É num local como estes que se confirma de modo seguríssimo que a talha dourada e os azulejos azuis e brancos são uma associação prodigiosa que muito ilustrou as artes decorativas em Portugal.
Grandes templos de majestosa arquitectura e decoração sumptuosa não faltam por esse mundo.
A talha dourada e os azulejos azuis e brancos são, contudo, uma ideia muito abundantemente praticada em Portugal que afirmou as nossas artes decorativas num plano de vincada originalidade.
.
O património artístico de Santo António dos Olivais está apoiado nesse e noutros argumentos de muito valor, a pintura e o mobiliário por exemplo, que justificam bem uma visita demorada.
.
Como ponto de partida para uma tal visita, não esqueçam os meus leitores em casa o lado desperto do seu olhar e o interesse artístico, que são muito mais importantes que a erudição pesadona, às vezes muito chata e completamente inútil no que toca à defesa real e concreta do nosso património de outros tempos, e da arte viva na nossa própria actualidade.
.
Digo isso sem deixar de recomendar o site da igreja que está na net
http://santoantonio.com.sapo.pt/
Alerto além disso todos os visitantes deste blog que não adianta nada a um país e a uma sociedade presumirem de cultos e interessados em artes e tratarem tudo o que é património assim tão tosca e desajeitadamente como ali se vê em Santo António dos Olivais, o que de modo sintético se torna claro pelo pouco que aqui fica dito muito resumidamente, e demonstrado pela evidência das imagens.
.
.
.
Saí hoje de manhã com uma dessas máquinas fotográficas que o consumismo tecnológico prodigaliza, que cabe bem no bolso e não pesa muito.
Cheguei a casa com um bom número de imagens e resolvi depositá-las aqui, com alguns comentários que qualquer um de nós faria, sem pretensões de espécie alguma.
Falar como quem passeia com um amigo, e acrescentar ao exercício matinal conveniente para a saúde essa outra utilidade: dar a ver o mundo a quem não foi também passear connosco, porque terá estado perto ou longe, talvez sem essa liberdade preciosa de poder andar pelas ruas sem preocupações de maior, em paz e desfrutando de saúde suficiente para o fazer.
Oxalá todos os que leiam estas linhas em partes distantes, ou mesmo aqui perto, possam fazê-lo sem mágoa nem desconforto.
Bom dia a todos pois, muito boa disposição e... atenção: continua no próximo número!...
Um dos achados mais felizes de todo o conjunto que actualmente acrescenta o antigo Parque Manuel Braga, ou Parque da Cidade de Coimbra, é este muro com cascata e repuxos, escultura de originalidade e bom gosto, cujo autor irei procurar saber, porque ainda desconheço.
Vale a pena ir lá, e deixar que a surpresa curiosa nos ganhe, na decifração do engenho subtil que lhe dá vida.
A água canta nas pedras e os véus de gotículas suspensas fazem-nos sonhar com arco-íris.
A pedra do muro, em fasquias, dá-lhe um toque vibrante que reforça a sua qualidade escultórica.
Bonito, em suma. E fresco, o que não é pouco numa cidade com verões tórridos.
Naquele espaço, que alguns toscamente já baptizaram como “as docas” de Coimbra, na tendência redutora que nos permitiria uma aproximação vagamente insignificante do Mondego às oleosas águas do Tejo, também veio implantar-se o Pavilhão de Portugal, oriundo de Hannover, construído por uns senhores arquitectos que nem vale a pena dizer o nome porque toda a gente sabe quem são.
É uma sucursal de Serralves em Coimbra (aqui sobrepuseram-se imparavelmente à “competência simplória” das águas do Mondego o ascendente do Douro, suas caves e Ribeira) que por sinal está encerrada por falta de eventos, por falta de artistas, por falta de gente, por falta de ideias e… por uma desastrosa abundância de preguiça incompetente.
O enquadramento da fotografia que apresento é fracota, se pensarmos no edifício em si, e na sua implantação.
Mas a minha ideia foi apenas a de me aproximar dos painéis minimalistas mas amplamente expressivos de azulejos azuis e amarelos que revestem – como eco de vozes claras – duas paredes da notável edificação.
A gratificação para quem atravesse a nova ponte pedonal (com reservas para os resguardos respectivos que parece que foram comprados numa loja de chineses, demasiado technicolor pós-moderno para o entorno paisagístico) é poder ver isto que abaixo se mostra, mas sem ser em fotografia!...
A realidade, como é natural, é mais alta, mais larga e verdadeira, mais profunda e transcendente.
Pode parar-se ao meio e ficar ali a respirar fundo um pedaço.
Leva oxigénio até ao espírito.
Aqui, temos um pequeno desgosto:
Os hipermercados despejam bicicletas aos milhares para as garagens e vãos de escada de todos os cidadãos deste país que gostam de andar ao fresco, depressa e sem terem de pagar bilhete.
A ideia é excelente e, além de não ser poluente, levaria qualquer um para o trabalho com comodidade e proveito muscular... se a ciência urbanística tivesse aplicação entre nós!...
Quer dizer: o país pouparia milhões de contos em combustíveis, os cidadãos poupavam no carrito, ficavam com a perna menos fofa de celulites dispensáveis e... não atravancavam os parques de estacionamento com lata superflua. Só vantagens!...
No fim de semana é o que se vê: bicicletas a andarem por todo o lado, mas muitas vezes sem olhar a peões, como é este o caso.
A ponte é só para peões, ou é pista para ciclistas aos molhos?
Já viram como ele vão, todos "à larga", ocupando o espaço todo?
Estava eu a tirar uma fotografia e, mal cuido, ia levando com um risonho e descuidado ciclista em cima!
E de quem seria a culpa? Minha, claro.
Ninguém me manda ter-me levantado tão cedo e estar ali, no caminho de um pelotão destes...
Moral da história: se há muitos ciclistas também teria de haver caminhos para eles poderem andar, sem correrem o risco de ficarem debaixo dos automóveis, nem andarem a disputar espaço aos peões!...
Vá lá explicar-se isto aos autarcas deste país, gente tão enlidada e absorvida por tantos afazeres!...
Atravessado o rio Mondego pela ponte pedonal (cuidado com os ciclistas!...) estão as margens em obras destinadas a uma das maiores indústrias da cidade: as suas Queimas das Fitas!...
O facto é que desde que estou em Coimbra (e já lá vão mais de trinta anos) nunca consegui atravessar o "basófias" com uma tão serena sensação de espaço liberto, vendo as margens ganhar algum verde, alguma ordenação dinâmica.
Ainda não está tudo pronto, mas as obras lá vão indo e outra agradável surpresa para quem vença a ponte é poder atravessar a movimentada “estrada de Lisboa” por uma passagem inferior.
Dali caminha-se até à rua que ladeia o Portugal dos Pequenitos, sempre vibrante de visitantes, até à viela ao lado do Casino da Urca que dá para a entrada dum monumento outrora ruína romântica afundada no seu berço de terras alagadiças, e agora lento estaleiro de obras.
Como não sou um forasteiro olho para aquela lástima e, por força d0 hábito, já nem pestanejo: a passagem para o monumento apresenta um estado perfeitamente “normal”.
A perspectiva da Universidade, vista daqui, fica um bocado destituída do merecido desafogo. Para compreenderem o que quero dizer, segue a fotografia junta:
Demoram as obras de restauro, mas lá vão indo, lá vão indo...
Vista deste lado, à luz do Sol e com aquele contraponto de nuvens pesadas lá ao fundo vejam como é absurda a cor rejuvenescida da pedra.
Nem parece antigo, o monumento, com suas telhas laranja novo parece uma vivenda de emigrante abonado.
A chuva e o tempo não tarda que o ponham de novo como era, soturno e grave.
Vá tempo, despacha-te!...
Nota posterior:
O comentário acima reporta-se à data em que foi escrito e está, felizmente, desactualizado.
As obras de requalificação deste importantíssimo património estão entretanto concluídas e podem (devem!...) ser por todos visitadas com proveito e prazer cultural.
.
Olhando em torno das obras de restauro do convento, ficamos com a alma cheia de sombras.
E não sabemos que dizer deste quadro deprimente, deste desleixo, deste desamparo, desta... pobreza (porque não dizê-lo, se essa parece ser a verdade mais gritante).
A única originalidade que faz rir é o "slogan" oportunista da serralharia.
Não só é "do Convento", como "faz milagres".
Com um louvável sentido de medida esclarece que apenas faz milagres no metal!... O que é grande pena, face à desastrosa situação da paisagem circundante!...

Atenção: continua no próximo número!...