Domingos de manhã passeados com vagar, fotografias, impressões e confidências feitas à cidade de Coimbra, suas casas e seus casos, seu rosto vivo, suas lágrimas e sorrisos.

Acerca de mim

12 junho 2007

Algures, para os lados do Calhabé

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falta foto, desculpas



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Coimbra também tem os seus Jacarandás

(vai com letra maiúscula porque me parecem merecer as árvores nome de gente: substantivo próprio!...)


.falta foto, desculpas

.O estádio de Coimbra começou por ser simpático a algumas pessoas que por ali passavam de autocarro. Como o viam de relance, em passagens breves, chamavam-lhe até “o disco voador”. As suas formas ovaladas, de cinzento alumínico, sugeriam esse mito cinematográfico de contornos evanescentes.
Hoje tornou-se naquilo em que se tornam todas as outras coisas: suporte publicitário, escaparate de anúncios, plataforma para os infatigáveis esforços do marketing!...
Os monumentos do passado oferecem-nos as suas pedras impregnadas pela usura do tempo. A esse metal nobre chamam os versados em arte histórica: a “patine”.
Enobrece mais que o cabelo branco e que o oiro reluzente.
Alguns falsários especializam-se em fabricá-la.
Mas só o tempo, “esse grande escultor”, pode genuinamente acrescentá-la aos objectos que resistem ao passar dos séculos.
E o “disco voador”? Que será feito do “disco voador” daqui a um solitário século; daqui a um insignificante centenar de anos?...
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falta foto, desculpas




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Uma estátua levanta-se diante de mim.
Como sempre a vi mais ou menos de longe, sempre me pareceu figurante de um romance alheio, personagem ensimesmada simulando a marcha para o destino incerto.
Visto assim de perto, o bronze de que é feito adquire um peso, uma soturna gravidade que me mete medo.
O pretinho que vai lá em cima, às cavalitas do soldado, fica quase invisível por efeito do maciço soco de pedra. A espingarda, não!...
A espingarda, vista por quem passa no chão é a verdadeira e principal protagonista da escultura. Não está apontada para nós, mas sentimos que pode disparar a qualquer instante, produzindo um estampido medonho.

Não é por isso, contudo, que aqui está a foto. É a inscrição (apaixonada…) que me inspira.
No soco de pedra uma frase:
ADORO-TE MITÉ
(assim de chofre, sem ponto de exclamação nem reticências).

A minha categoria de cidadão completamente desprovido de defesas perante a irredutibilidade dos afectos, cai de joelhos perante a evidência universal dos impulsos românticos.
Ignoro por inteiro que género de intenção possa ter estado na origem de tão enorme grito de alma.
Conspurcar um monumento é um crime punido pelo artigo xis do Decreto Lei ypsilon do ano tantos do tal, dirão alguns. Cem por cento de acordo, tudo bem!...
Mas a vontade, a irreprimível vontade de exprimir um desejo assim, tão rente às águas como um grito desesperado do homem que se afoga, tão desesperado como o pedido de socorro de alguém envolvido pelas chamas de um incêndio: um grito de desejo assim
ESTAVA LÁ ANTES, há milhares de anos, IMPRESSO NA ALMA DE QUEM GRITA!...

ADORO-TE MITÉ!...

Não sei se me envergonhe de dizê-lo, se me empolgue ao confessar-vos:
De cada vez que ali passo e leio a frase, aperta-me a garganta um indizível sentimento de comoção.

Esse desejo originário, sei lá, de que irrisório impulso de transgressão, arrasta consigo – não obstante – a representação simbólica dum possível drama de contornos indefiníveis.
Pode ser um grito de violência atávica. Mas pode ser da mesma forma um apelo da mais pura e cristalina afeição; lágrima solitária e diamantina dum arrebatado coração trespassado.
Vá lá saber-se como e quando?!...
Vá lá saber-se porquê?!...

Ao singelo autor da inscrição dedico, em lágrimas comovidas, “o soneto da fidelidade” de Vinicius de Morais:


De tudo, meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive) :
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


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