Domingos de manhã passeados com vagar, fotografias, impressões e confidências feitas à cidade de Coimbra, suas casas e seus casos, seu rosto vivo, suas lágrimas e sorrisos.

Acerca de mim

06 maio 2007

O Tovim, Coimbra, dramas urbanísticos como há muitos...

É favor notar:
  • Este texto foi escrito na sua quase totalidade em 1999, e algumas coisas já estão ultrapassadas, infelizmente, nalguns casos, para pior.
  • A fotografia acima, tirada há uns bons dezasseis anos, mostra os meus dois filhos na parte detrás da casa onde habito, lugar ainda cercado por espaços toscamente revoltos, mas ainda com árvores, e algum espaço para brincar com os amigos...
Tópicos aqui abordados:
  • Uma apreciação geral da paisagem de Coimbra em geral, e do Tovim em particular;
  • Da incapacidade das autoridades municipais, e outras, em usar para benefício de todos o património paisagístico e espacial desta e de outras terras;
  • Dos inúmeros abusos e faltas de sensibilidade, públicos e particulares, que afectam a fortuna e o viver das gentes que aqui habitam;
  • De como uma coisa bonita se pode tornar feia, se a não tratarmos com amor;
  • De como as crianças daqui vivem tristes por não terem onde brincar, e de como os velhos andam cabisbaixos e sós quase pelas mesmas razões.


A PAISAGEM, O LUGAR, OS HORIZONTES

Esta cidade onde vivemos estende-se por sobre um solo muito enrugado, com vertentes acentuadas, entrecortadas por vales estreitos e, se não fora a largueza dos vales abertos pelo rio (Mondego, claro), ficaria reduzida aos horizontes que lhe permitem os pontos mais elevados, no lombo de cada cabeço ou nos pontos extremos das serranias mais levantadas.
Fazer urbanismo e organizar o solo em condições tais seria um privilégio requintado para um arquitecto que pudesse, ou quisesse, tirar partido das mil e uma possibilidades da paisagística tão intensamente requebrada e de mil maneiras modulada.
Um desenvolvimento precipitado e tosco produz um tipo de acumulação de edifícios que continua a proporcionar até certo ponto, para quem olhar de muito longe, um sentimento de enquadramento paisagístico razoável, um sentido de cidade em expansão dinâmica.
O tecido antigo da mancha rural, as suas hortas e pequenos bosques vai escondendo como pode os aleijões mais gravosos do disparate da arquitectura do pato bravo, ave pouco adequada para estigmatizar aqueles que têm sido designados sob esse epíteto, por ser tão livre e por ser tão simpática.

A IGNORÂNCIA, A INSENSIBILIDADE E A IRRESPONSABILIDADE URBANÍSTICA

Com o acentuar dos erros de distribuição urbanística aquilo que de início poderia ser um regalo para os olhos começa a não enganar ninguém, nem de perto nem de longe. Sobretudo nas áreas onde as taxas de ocupação dos solos têm ultrapassado a medida do razoável, a mancha citadina é já uma parede espessa de estruturas de betão armado, que cortam o fôlego de quem as observa, e reduzem ao desconforto o quotidiano de quem nelas habita. Para aqueles que escolheram residir na margem menos saturada da antiga paisagem campestre, e ao fim ao resto para todos os outros habitantes da cidade, o problema torna-se muito mais do que simplesmente estético, e passa a ser uma questão que lida com cada parcela da liberdade do cidadão, com a saúde e o bem estar da sua família, com o tipo de convívio e o relacionamento que mantém com a comunidade e com a própria natureza. O local onde habito, tecnicamente designável como "urbanização", nasceu duma velha quinta à beira da estrada e talvez pudesse ter sido concebido para nele vigorar alguma qualidade de vida, com alegria e entretenimento para os mais jovens e com a necessária serenidade e paz de espírito para os mais crescidos, se o espaço tivesse sido utilizado de forma inteligente e mais generosa. De acordo, aliás, com a tradição bucólica do espaço rural dos Tovins.

O LUGAR ONDE VIVEU VITORINO NEMÉSIO

A estrada em referência adquiriu depois de para aqui vir o nome enobrecido de um grande cultor da língua portuguesa, Vitorino Nemésio, que aqui residiu num local chamado "os casaréus", e que ficaria à vista da janela da minha cozinha. Da habitação do grande artista conversador apenas sobrou uma modesta porta, actualmente encastada no muro duma luxuosa vivenda. Bem pouca coisa para lembrar o mestre, ou francamente menos do que mereceria o seu vulto criador, atendendo à presença assinalável que teve nesta cidade de Coimbra.

VALE DE CANAS - UM PARAÍSO PERDIDO

Quem há três ou quatro dezenas de anos contemplasse de longe este subúrbio, sem se dar conta da pobreza de muitos dos seus moradores, da carência de infra-estruturas, do abandono das quintas e da tortuosa e velha estrada para Vale de Canas, iria mesmo assim deliciar-se com a vista, já para não falar do deslumbramento que era sentido ao chegar lá acima, à jóia da coroa das paisagens de Coimbra, donde se podem ver as sumptuosas serranias para nascente e todo o enorme vale que desce em abertura até lá para as bandas do mar.
Já eram bem diferentes as coisas há dez anos quando para aqui vim, mas foi meu privilégio ter visto crescer o meu filho mais novo num tal espaço, onde ainda pôde construir um imaginário saudável, ligado à fruição duma liberdade relativa, na companhia de alguns vizinhos da mesma idade. Refiro esta fase embora ela não derivasse de nenhuma espécie de acção organizada pelo homem, antes resultasse apenas do anarquia semi-rural do espaço em torno.

A DES-URBANIZAÇÃO ONDE EU MORO, E AS OUTRAS...

No sítio onde moro, a marcha incontida de obras envolventes, arrastadas, permanentes, numa ocupação sistemática de todas as áreas livres, levadas a cabo sem qualquer respeito pelos habitantes já instalados, uma arrogância dos agentes construtores cientes de que são eles quem tudo manda, sem terem de respeitar nenhuma espécie de regulamento ou legalidade. Tal atitude deriva, obviamente, duma conivência da fiscalização municipal, forçando o cidadão contribuinte a sentir na pele uma lista incontável de inconvenientes que oscilam entre a mais simples e ingénua desatenção ao abuso premeditado e negligente, capaz de causar acidentes graves, conforme pude constatar pela minha observação directa, mais do que uma vez, das próprias janelas de minha casa, sem ter necessidade de sair à rua. Por toda a cidade aliás se estende esse tipo de comportamento. Uma empresa construtora que tenha pela frente qualquer espécie de iniciativa goza, ao que parece, de uma espécie de tolerância permissiva. Pode rebentar passeios, estoirar com o pavimento das estradas, espalhar betão nas ruas, deixar a estrada atulhada com as sobras da sua actividade, areia, terra, tábuas, etc. Os cidadãos são continuamente ofendidos com tais abusos que lhes roubam a tranquilidade, o silêncio, o espaço na via pública, o encurtamento ou ocupação de passeios etc. Não raramente se tem instalado neste local um verdadeiro império do pó ou da lama, sem que nada nem ninguém seja chamado à atenção, como se uns cidadãos fossem merecedores de toda a tolerância, e outras vítimas sem protecção de todas as arbitrariedades. Será a capacidade de fazer obra (e ganhar muito dinheiro com isso) um privilégio prepotente, uma virtude mágica sem rei nem roque?
Pergunta pois o munícipe:
– Haverá leis neste país? Haverá regulamentos nesta cidade? Quem vela por nós, cidadãos apeados de poder? Quem defende a lei? Quem nos governa?
Ninguém, aparentemente, é a única resposta que ocorre a quem contemple criticamente o que se passa.

Sob o ponto de vista cívico, o cidadão anulado pela indiferença, desarmado de capacidade crítica, é um capital cómodo e conveniente de suporte político, disponível para caucionar dualidade de critérios, abusos de poder, favores aos amigalhaços, esquecimentos convenientes e tolerâncias amistosas. Isto, a par de outras coisas mais dificilmente enumeráveis, mas que existem.
Seria necessário reforçar a persistência interessada de quem olha as coisas com o sentido de ver e de todos aqueles que guardam na memória episódios realmente concretos e testemunhados por vizinhos, que permitissem denunciar com clareza que a administração da cidade, onde não peca por incompetência, peca por omissão conveniente, e onde não peca por incapacidade técnico-administrativa, peca na defesa de interesses que não são aqueles que dizem respeito aos cidadãos no seu todo, mas apenas a certos e determinados interesses.
O esgotamento da liberdade espacial, a maximização da ocupação dos solos, a pressão duma lógica exclusivamente ligada ao interesse do empreiteiro mestre de obras, tem vindo a reduzir ao mínimo a liberdade do local onde habito.
Embora sendo uma zona onde se vão erigindo também vivendas de alto luxo e de preço elevadíssimo, não pode afirmar-se de jeito nenhum que a área envolvente possa vir a ser no mínimo aprazível. Antes pelo contrário.
As crianças do futuro que aqui nasçam terão de fugir para longe, em busca dum qualquer espaço disponível onde possam construir o seu imaginário e inventar o seu gosto de viver.
Atendendo a que nesta área se acumulam em promiscuidade urbanística velhos casinhotos de gente muito modesta e residências de velhos habitantes do local com festa do Santo, procissão, foguetes e tudo, a par de prédios de andares com milhares de condóminos profundamente desenraizados que timidamente se ignoram uns aos outros e algumas vivendas de luxo de altíssimo custo, a colina – vista de longe – começa a ter o aspecto visualmente insuportável de empastado incaracterístico com irrecuperável mau gosto.
Pior do que isso, oferece todos os inconvenientes duma situação irreversível, de recuperação impossível para o uso moderno e confortável do espaço, afastado ainda por cima de normas de funcionalidade e segurança, gestão de recursos turísticos, paisagísticos, patrimoniais, naturais, etc.
O presente depoimento não é um levantamento sistemático dos erros catastróficos que têm sido cometidos por toda a cidade no assalto precipitado ao solo urbano. Ao ponto em que as coisas chegaram já não é necessário um arquitecto paisagista para fazer esse trabalho, embora seja evidente que um estudo crítico adequado deve ser feito por especialistas que os há disponíveis e competentes para tal.
A Câmara Municipal de Coimbra tem tido durante anos e anos ao seu serviço especialistas nessas matérias e, nem este, nem os mandatos anteriores pode eximir-se às inerentes responsabilidades que, a meu ver, adquirem perfil de atentado patrimonial gravoso, que a história julgará com todo o rigor e consciência de prejuízo.

O sentido da ideia de património está geralmente ligado ao espaço histórico e às zonas monumentais de aglomeração urbana antiga.
Para mim esse conceito é demasiado estreito, porque julgo que todo o espaço da cidade, toda a natureza que a envolve e rodeia, o próprio sentir e a liberdade dos seus cidadãos são elementos patrimoniais essenciais, estruturantes da memória, da cultura, do civismo e da paz social.
O depoimento presente foi iniciado num dia em que senti o desejo de esquecer a rua tortuosa e saturada de automóveis em que habito, a rua dos passeios novos de dois palmos de largura, que tem um belo nome de poeta e de escritor: a Rua Vitorino Nemésio.
O relatório atento e cuidado sobre os oitenta metros de rua que estão de fronte de minha casa e se vêm da janela da minha cozinha daria para fazer um enorme levantamento de problemas de administração autárquica, infelizmente aplicável a um sem número de outras ruas, com as mil e uma variantes possíveis de disparate, desperdício e inconveniência.

A ESTRADA PARA VALE DE CANAS, O CHOUPAL, AS BENDITAS ZONAS VERDES...

A rua é, no seu traçado e na sua origem, muito antiga. Estou em Coimbra há somente trinta anos, o que não dá para contar coisa de jeito da sua história, que há-de vir de há muito mais tempo.
Há trinta anos iria enganar-se quem pensasse que seria brilhante o seu futuro promissor.
A colina semeou-se de casas bem em cima das ruas alcantiladas e tortuosas, metidas em cima de velhos carreiros ou cortadas na lomba dos cabeços, algumas com inclinações de meter medo, e ainda hoje sem tratamento adequado de águas fluviais, sem passeios seguros, sem prazer nem conforto para quem nelas vai de carro, sem calma nem segurança para quem nelas vai a pé.
Sobra, entre outros, o problema de não haver saneamento básico em muitas das suas áreas e de planificação urbanística atenta ou competente, nem vestígios dela.
O espaço privilegiado que é a Mata do Vale de Canas, tem vindo a sofrer do mesmo tipo de atitude negligente que vitimou o Choupal.
Que o digam os praticantes de BTT que sobem pela Rua Vitorino Nemésio até à Rua do Bombeiro Voluntário, onde se arrumam magníficas vivendas donde se desfruta a paisagem agora quase totalmente subtraída ao visitante casual.
Não há, para quem queira beneficiar desse tesouro, quer para Nascente quer para Poente, um único sítio onde se possa parar com sentimento de desafogo e prazer, circunstância agravada mais recentemente pelos tenebrosos incêndios que infligiram à antiga mata danos irreparáveis.
Tenho o hábito de ir a essa zona com visitantes de fora, sempre que sou procurado por forasteiros.
Gostaria de poder referir o conjunto de considerandos que me foram feitos por um arquitecto paisagista alemão e respectiva esposa, com os quais contemplei há algum tempo atrás, a magnífica paisagem até à Serra da Boa Viagem, num curto lapso de estrada, já na descida, onde o estacionamento é perigoso, o espaço exíguo e a paisagem, em todo o seu esplendor, parece estar desta forma entregue à insensibilidade negligente e ao desprezo mais absurdo.
Lá em cima do antigo miradouro de que nos era permitido ver as sumptuosas e surpreendentes serranias para o lado Nascente, uma cortina espessa de eucaliptos tinha entretanto crescido, cortando a visão pela totalidade, e frustrando a promessa que fizera aos visitantes.
Por todo o pequeno espaço ajardinado reinava um silêncio soturno, uma ausência de calor humano a que uma ou outra presença atípica poderia sugerir uma ocupação do espaço pela marginalidade, como é o caso no Choupal.
Faço aliás referência a uma visita ali efectuadas por mim, há anos, com um visitante de fora curioso de conhecer o mítico local, em plena luz do dia, durante o qual observei um clima completamente diverso daquele que era usual há cerca de 20 anos, quando ali praticava desporto com a minha família.
A presença intrusa da marginalidade mais suspeita estendia uma sombra de inquietação sobre o local, que desde então nunca mais incluí no meu percurso de visitas...
Como está mais actualmente, desconheço inteiramente.
Ou seja, nem a utilização dum património paisagístico que me parece do mais elementar bom senso preservar e desenvolver como riqueza colectiva e produtiva parece ter passado pela cabeça de quem governa a cidade.
A Mata do Vale de Canas nada tem ganho em segurança e aprazimento. Ao que me consta pelo saber de experiências feito de meu filho mais novo que para ali ia andar de bicicleta, são agora alguns atrevidos dos desportos ditos mecânicos que põem em risco os ciclistas e passeantes apeados.
De lugares povoados de utentes pacíficos, dum qualquer programa bem estruturado de utilização pública, de meios de transporte fáceis de acesso (com excepção para o bendito automóvel, para o qual é escasso o espaço de estacionamento) de facilidades e equipamentos aquecidos pela presença humana organizada, nem vestígios.
Falando de ciclistas, bem me custa vê-los passar à minha porta, vergados pelo esforço, a ter de respirar o gasóleo dos camiões e, pior do que isso, sujeitos a serem vitimados por um desses mastodontes, ou por outras máquinas mais miúdas, mas tripuladas por gente apressada e impaciente, ansiosa por desembrulhar o encadeado de curvas a toda a pressa, custe o que custar, pondo em risco a segurança própria e alheia.
O facto traz-me à lembrança a realidade de países muito ricos que poupam fortunas em combustíveis, poluição e concentração automóvel (países fabricantes de automóveis, note-se) infra estruturando vias de comunicação exclusivamente para ciclistas por tudo quanto é lado, nas cidades e fora delas, para fruição turística, melhoria do estado de saúde dos cidadãos ou pura e simples solução do problema dos transportes.
Entre nós, país importador de gasolinas e automóveis (e que fabrica bicicletas, note-se) esse tipo de preocupação não passa pela cabeça de quem manda (mal) e planifica (pior).
Quanto a bares, muito cá para baixo, inaugurou-se há tempos um, nas minhas vizinhanças, que nasceu paulatinamente de dentro do miolo de uma casa velha bem a cavalo da tal estrada estreita e convulsa.
E é ver as noites, com carros a esmo por cima de toda a folha e em estacionamento arriscado, proibido e incómodo.
Será que os presidentes e vereadores que aqui passam, de regresso às suas vivendas e montados nas suas viaturas oficiais nunca repararam nisso?
Acham muito bem?
Se sim é, daqui lhes remeto os meus parabéns.

A RUA VITORINO NEMÉSIO E AS SUAS METAMORFOSES

A tal estrada velha e antiga, feita agora rua "urbana" tortuosa e difícil, também utilizada às vezes pelas noites pelos praticantes dos desportos motorizados, não tem infra-estruturação que aguente a progressiva carga que sobre ela desaba, dia a dia. São camiões e camiões carregados de materiais de construção, e certamente milhões de toneladas de desaterros para cima e para baixo.
A estrada, nascida por por via dos acasos da sua antiguidade, foi-se moldando às encostas e ladeiras que a constrangem. Não fica por isso a dever nada a ninguém, não podendo por isso pensar-se que, se já não serve bem de há muito os milhares de veículos que por aqui passam, não terá com certeza futuro, porque não pode tê-lo.
Não há notícias contudo que lhe dêem esperança de melhores dias, ou ajudas concretas na planificação de alternativas.

UM PASSEIO, FRACO REFÚGIO PARA ASSUSTADOS CAMINHANTES

Alarmado para inércia de planificação para a segurança, tomei a iniciativa de sugerir para a rua onde habito a construção de um passeio, que minimamente salvaguardasse as condições de circulação pela mesma de passeantes apeados, dos que não passam montados em camião, desconfortavelmente apertados em autocarros ou nos milhares de automóveis que incessantemente por aqui circulam.
Lentamente foi avançando o processo de acumulação das assinaturas, lutando contra uma desconfiança e uma falta de convicção cívicas de bradar aos céus. Primeiro é lamentável que as pessoas tenham que recorrer a processos de solicitação pública e reivindicativa para disporem de algo que é elementar e deveria ter sido pensado e executado antes de tudo o mais por aqueles que têm o dever e ainda por cima são pagos pela comunidade para isso mesmo.
Depois, é necessário o bater de porta em porta que penosamente é levado a cabo por alguns vizinhos de boa vontade, arrostando com a fria incredulidade do vizinho pessimista, afeito à incompetente apatia e indiferença dos serviços e autoridades competentes.
Entregue o abaixo-assinado, devidamente fundamentado e apoiado com fotografias perfeitamente elucidativas, longuíssimo processo de espera tem lugar.
Sem que os residentes tenham qualquer espécie de conhecimento do facto decisório e de qual teria sido o efeito real da sua modesta solicitação, surge finalmente anunciada a construção do passeio em espaçosos e bem evidentes "outdoors", com tudo bem nomeado e descriminado. Assim fosse espaçosa e desafogada a obra!...
O passeio contudo desanima quem o vê e muito mais quem terá de andar nele pelo decénios que lá vêm.
Nuns sítios dá para ir de mão dada com a namorada ou com a mãe ou com o filho. Noutros só dá para marchar um cidadão sozinho.
Noutros locais terá de se ir ao pé-coxinho e noutros nem dum modo nem de outro. O passeio que por ali vai fraco, de repente, morre.
O poder das evidências dá força à fatalidade de nunca ninguém ter pensado que uma rua, quando nasce, é para todos.
E que num local onde a entidade responsável tem a coragem para licenciar a construção de milhares de casas de habitação, deve pensar primeiro como é que essas pessoas vão viver, e circular e estacionar e conviver e brincar e descansar dentro dumas normas que façam de tais habitantes não apenas pagadores de sisas, licenças, coimas, impostos, taxas (e votos!...) mas cidadãos no pleno uso dum justo e necessário sentimento de liberdade e prazer de existir.
Ou então assumir duma vez por todas aquela decisão que seria a mais lógica, por se ter deixado chegar a situação onde ela chegou: decretar em certas ruas o trânsito proibido aos peões!...
Já uma vez escrevi, há longos meses, aos SMASC, a comunicar algumas razões das que exponho acima. Não recebi qualquer resposta por escrito, forçosamente responsabilizante. Mas fui visitado por um simpático e jovem engenheiro, que cheio de gentileza tranquilizou as minhas preocupações. Quanto à realidade dos factos, permaneceram tal e qual, ou pior ainda.

O BETÃO INVASOR, A FALTA DE LIBERDADE E DE BEM ESTAR PARA TODOS OS CIDADÃOS!...

Nos termos de licenciamento da já referida urbanização onde habito existia um terreno vago, daqueles que são tomados aos proprietários do solo, para efeito de conveniência geral.
Este ere o aspeto do belo arboreto que existia nesse espaço, nessa altura verde, mas degradado e "apodrecendo" por negligência de quem de direito, "para os devidos efeitos"...:
O terreno vago acabou por ser oferecido a uma instituição de utilidade pública que ali instalou uma obra social cuja utilidade não se discute, mas cujas instalações foram arquitectadas de tal forma que efectuaram uma ocupação absolutamente esmagadora de todo o espaço disponível, indo em muitos detalhes certamente para além da legalidade urbanística, do bom senso estético e, sobretudo, para além da dignidade e comodidade do sítio em si, como lugar habitável com um mínimo de prazer e de espaço vital.
Anos que ali esteve aquele espaço vago, não serviu senão para utilização indiscriminada de senhores empreiteiros para despejarem detritos, porem e tirarem terra, lavarem camiões betoneira dos restos de cimento, etc.
É certo que os miúdos que aqui viveram durante os primeiros anos da nossa permanência no local ainda assim beneficiaram um pouco do vago sentimento de liberdade que aquela baldio selvagem lhes pode proporcionar como lugar de algumas brincadeiras.
Nunca tendo sido aproveitado, aliás, senão numa reduzida faixa da sua superfície (na maior parte completamente ocupado por silvas e outras espécies invasoras e até perigosas, por répteis e outros bichos).
Os donos e senhores da cidade não quiseram tornar este pedaço de terreno em nada que servisse a liberdade dos cidadãos, o convívio dos velhos e a necessidade premente das crianças, para ali instalar qualquer espécie de infra- estrutura que servisse a todos, e tivesse esse valor precioso que rareia: o do espaço útil em franqueza de liberdade, jardim, parque terreno de festas ou de jogos.
Nada. Não sobrou nada, nem para passeios, nem para áreas de estacionamento.
A fotografia a seguir mostra-nos a destruição do verde, com um "pequeno" detalhe que teria a sua importância se estivessemos num país onde as leis fossem para cumprir: azinheiras e sobreiros, árvores protegidas, entre outras, foram reduzidas a lenha...
A obra que virá a ser mostrada também numa fotografia a colocar futuramente, representa um esmagamento puro e simples de todo o espaço, em que a única parcela de passeio circundante se viu recortado ao mínimo, encostado a um paredão sem sentido e, ao que se diz infringindo a legalidade dos preceitos construtivos.
De resto, no espaço dito para ser livre (e verde...):
  • Nem um banco para um homem se sentar a ler um livro ao fim da tarde;
  • Nem lugar para um montão de miúdos ter o prazer de jogar a bola;
  • Nem espaço para abrir de silêncio o coração, para pensar ou conversar, para jogos populares, de crianças ou de adultos, como ainda se usa no centro das grandes cidades, vilas e aldeias de toda a Europa;
  • Uma criança que aqui nasça, que queira brincar algures terá que fugir daqui. E já agora, perguntará: para onde?
Europa de Paris tão longe onde em cada bairro há um sítio para os velhos jogarem às bolas, baterem as cartas e palrar da vida, como Deus manda.
Não acaba aqui, nem de perto, o rol das observações possíveis.
Muita coisa poderia dizer, e algumas bem documentadas e apoiadas pelo testemunho de condóminos e vizinhos.

A AVENIDA ELÍSIO DE MOURA, A CIRCULAR "EXTERNA" E ARRANHA-CÉUS À MANEIRA DO TERCEIRO MUNDO

Aqui bem perto alinham-se os torreões descomedidos da Avenida do Insigne Filantropo que foi Elísio de Moura.
Quem foi o urbanista que os plantou ali?
O mesmo que licenciou a colocação de hipermercados bem dentro da malha urbana da cidade? Os mesmos que andaram a prometer à cidade, em mandatos a fio, a construção duma célebre circular exterior, agora finalmente concretizada, mas coxa, por que acaba por desaguar em zonas saturadíssimas em ambas as suas extremidades.
Resultado: a circular é uma estrada comprida, sim senhor, mas é só isso, não preenchendo em absoluto os requisitos que o seu nome sugere, ou seja, de ser um anel eficaz para se circular à volta do aglomerado habitacional, fugindo às suas artérias saturadas, e retirando da malha urbana trânsito que lhe é alheio. Aliás não dá acesso directo nem ao IP3, nem à Auto-estrada de Lisboa Porto.
Não será um dos princípios fundamentais do urbanismo moderno não deixar que se enoendam no interior dos novos bairros habitacionais vias de penetração intensa de circulação automóvel, construindo tais zonas em áreas de velocidade reduzida obrigatória, sem saída para vias de circulação estruturante?
Não é preciso ir nem à Alemanha nem a Inglaterra para ver consagrado este princípio básico. Na nossa vizinha (e tão distante...) Espanha, até nalgumas das mais problemáticas áreas periféricas se vê observada essa regra da qual, em Coimbra, ninguém parece ter ouvido falar nos gabinetes de especialistas e técnicos da Câmara Municipal respectiva.
Regressando ao tema dos arranha céus da Avenida Elísio de Moura, há países na Europa em que este tipo de habitações é inconcebível, tendo-se tornado típico apenas das “megacidades” do terceiro mundo, Filipinas, Indonésia, Malásia e outros absurdos como a cidade do México, São Paulo no Brasil, etc.
Não cabe neste já longo rol de impressões a demonstração dos erros e das inconveniências duma tal "desorientação urbanística", óptimo negócio para os especuladores e péssimo negócio para quem ali comprou andares.
Cito apenas um caso histórico em Berlim de que tenho conhecimento (o "Märkischen Viertels" – 1965, Berlim Oeste) em que uma barbaridade urbanística de prédios de habitação de vinte andares ( muito diferentes dos da Avenida Elísio de Moura, mas dispondo de áreas envolventes de longe muito melhor dimensionadas) foi constituída como exemplo de crime urbanístico lesivo do bem estar e da saúde mental e física dos seus habitantes (o "Betonbrutalismus"), e determinou críticas tão fortes que impuseram uma autêntica repulsa por soluções do mesmo tipo em toda a Alemanha, a partir dessa data.
Mais de vinte anos depois, nem a serenidade dos arquitectos, nem o conselho de técnicos urbanísticos pagos por bons salários, nem o bom senso dos administradores autárquicos (que tanto viajam de avião para tantas paragens do mundo) nada aprenderam ou nada quiseram assimilar da experiência averbada por terceiros.
Rua Vitorino Nemésio, Outubro de 1999
(com algumas actualizações feitas no dia de hoje - 24/10/2006)
Costa Brites





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