Domingos de manhã passeados com vagar, fotografias, impressões e confidências feitas à cidade de Coimbra, suas casas e seus casos, seu rosto vivo, suas lágrimas e sorrisos.

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06 maio 2007

Fernando Martins de Bulhões, Santo António, os carrinhos de choque e as Farturas da Tânia

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Passei vezes sem conta por Santo António dos Olivais antes das obras feitas, e é como aqui o "apresento" que o "via".
O sítio já não era (nem bem, nem mal) como está no desenho.
Na mente contudo fazia-o assim, de cal branca e céu despojado como certamente se viu no dia em que o "poverello" de Assis se desvestiu completamente perante seu pai Pietro di Bernardone, devolvendo-lhe o resto de tudo o que possuía, para se entregar a outro mundo - o seu mundo.

Não, não tenham medo que não estou a confundir António com Francisco: António é um e Francisco é outro, fazem parte da mesma ordem de imagens que dão corpo a uma certa ideia de catolicismo, terá sido um português, terá sido outro italiano, e não é aqui que se vai querer apurar a verdade verdadinha de um ser "nosso" e de o outro ser "estrangeiro".

Acaso levarão as almas bilhete de identidade ou passaporte para poderem entrar na imensidão dos céus? Acaso haverá por lá "santos portugueses" e "santos italianos"?
Acaso trataram disso os anjos guardiães do céu no dia em que, em sua glória ou suas penas, terão batido António e Francisco, pessoas como qualquer de nós, às portas do paraíso?!...

falta foto, desculpas
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Os carrinhos de choque da minha infância, quando - uma só rara e espaçada vez por ano - a Feira de Março passava por Leiria, não eram propriamente o paraíso.
Mas tudo junto, o carrossel, o circo, as tendas brancas que vendiam toda a sorte de coisas e brinquedos coloridos de barro também, o poço da morte com a sua encenação assustadora, as barracas de tiro com umas raparigas que cheiravam demasiado a perfume e não ligavam a garotos pequenos como eu, se não eram o paraíso, andavam lá perto!...
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No meu tempo, não havia Tânias e a barraca das farturas era só a "barraca das farturas".
Entrava-se lá para dentro a flutuar numa nuvem estonteante de açúcar, canela e massa frita em azeite, e a luz do dia filtrada pela lona colorida da cobertura dava aos rostos a cor de uma alegria surpreendente, inteiramente distinta da que se havia visto antes.
Outro pequeno detalhe confortavelmente inesquecível era o chão de terra frequentemente amaciado pela chuva de Março, completamente recoberto com serradura, que acrescentava ao ambiente modesto apenas mais um aroma riquíssimo, eco distante de pinheirais que não ardiam!...
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falta foto, desculpas
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Este banco pós-moderno de ferro cinzento triste, posto à ilharga da elegante Capelinha do Cruzeiro, que contém o valioso Cristo de João de Ruão, conhecido por "Cristo dos Olivais", nem é confortável para quem nele se senta nem vale uma pitada de açucar das farturas da Tânia.
Quanto a ser a escolha certa para figurar no "equipamento urbano" do santuário de Santo António dos Olivais, creio que nem tira nem põe na imensa variedade de objectos que por ali há, em acerto ou desacerto de embelezamento e comodidade.
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