Domingos de manhã passeados com vagar, fotografias, impressões e confidências feitas à cidade de Coimbra, suas casas e seus casos, seu rosto vivo, suas lágrimas e sorrisos.

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01 março 2008

Os painéis de João Abel Manta em Coimbra, um tesouro muito mal estimado!...

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Muita gente que usa (e usou...) capa e batina, passará ao longo deste trecho da Avenida Sá da Bandeira, à frente do Teatro Académico de Gil Vicente e do complexo de
instalações da Associação Académica de Coimbra, não tendo reparado atentamente nos painéis de João Abel Manta, de 1958, que ali se encontram aplicados.

É possível, e é de lamentar que uma tal coisa possa acontecer, até porque os sete painéis do grande artista (merecedor de destaque no elenco dos maiores da História da Arte em Portugal, e não apenas do seu século) é uma obra dedicada "à evolução do traje académico"!...

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agora de inverno é possível avistar o painel daqui, com a simpática nota musical dos repuxos saltitantes. Assim que chegar a primavera (Deus a traga!...) adeus oh painel...



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Quem se debruce de forma cuidada sobre o actual estado de toda aquela frente do edifício, reparando no estado de manutenção do edifício e na sua apresentação estética, ficará triste, por certo.
Tudo muito descuidado (para dizer pouco...) sofrendo a obra aqui em apreço de um efeito de desprestígio evidente. Digamos que tudo concorre para que "ninguém a veja"!...

É uma vergonha que, não obstante, não fica por aqui: no jardim (???...) da Associação, lá atrás, há um outro notável painel de azulejos, também de autoria de João Abel Manta, sobre o tema "actividades culturais estudantis", votado ao mais desprestigiante abandono!...

Aqui por baixo se reproduzem dois dos que documentam o traje académico nos séculos XVIII, XIX e XX, respeitando as reais proporções dos painéis (aqui tratados para não serem vítimas do erro de perspectiva que afecta o observador que os contemple de perto, ao nível do solo).

O painel aqui apresentado em primeiro lugar, entretanto, encontra-se parcialmente oculto por um indisciplinado "ramalhão". Para o mostrar assim, foi preciso um bom bocado de trabalho com o Photoshop.
Quanto ao desordenado arbusto, não é que eu seja inimigo da natureza, mas se há tanta árvore nobre que é abatida sem piedade, que será que ele ali está a fazer?...


falta foto, desculpas



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falta foto, desculpas

Nestes, como noutros painéis, é observável a sua degradação (azulejos quebrados, além de outras mazelas).
O "recinto" relvado, a vedação com marcos de ferro e correntes (um deles por terra), o estado da parede com grafitos e muita sujidade, as janelas muito mal "lavadas" e com aros ferrugentos (e letras a preto e branco lá por detrás que ali estão a fazer nada, além de lixo visual...), em suma, está tudo para ali a "ajudar o pai, que é pobre"!...

A configuração dos painéis é feita da forma sempre muito engenhosamente estética que João Abel Manta imprime a todas as suas criações, portadoras, além do mais, duma riquíssima gama de alusões de ordem cultural.
O desenho é elegantíssimo e de uma limpidez expressiva inigualável, fazendo concorrer neste caso 3 elementos caracterizadores:
  • à direita, um par de estudantes envergando o traje académico, apenas com ligeiras variantes;
  • à esquerda, um casal de cidadãos comuns (em Coimbra pouco elogiosamente designados, antanho, como "futricas");
  • em fundo, um detalhe arquitectónico de uma obra monumental que pode contextualizar a paisagem artística da cidade, de forma aproximada, relativamente ao período estudantil respectivo.
O desenho hierarquiza os diversos elementos figurados através das diferenças de espessura dos traços e da sua coloração, o que também assinala a diferença dos planos em que se situam.
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E aqui, para que conste, com ferro velho e silvas à mistura (ou coisa que o valha) um aspecto colhido em dia de chuva (melhor assim porque não se vê a miséria toda) o tal "painel das traseiras":




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Comentários poderá toda a gente fazê-los, mas em vão.
Uma vergonha destas, não há comentários que lhe valham!...

O tratamento desta questão deveria ser parte de uma apreciação especializada e profissional (que não cabe aqui fazer-se) de todo o complexo do TAGV e da AAC, conjunto monumental muito significativo do património recente da cidade de Coimbra, todo ele precioso para a sua actualidade cultural, instalações e serviços activos que conviria manter no mais elevado grau de aprumo funcional, técnico e estético.
O Teatro Académico de Gil Vicente é uma entidade pública sob a administração da Universidade de Coimbra.
A Associação Académica de Coimbra e todos os seus organismos autónomos são entidades do mais elevado interesse para estudantes e não estudantes e devem merecer a maior atenção de todos nós, cidadãos de Coimbra e de fora dela.

Se servem a cultura como têm servido e se pertencem à memória de enriquecimentos culturais de tanta gente que os tem frequentado, é bom que continuem a poder fazê-lo.
Se servem a cultura, servem-se do apoio de todos nós, alunos que fomos e pais de outros alunos ou simples cidadãos contribuintes que olhamos as coisas com o direito legítimo de ver o que está bem e o que está mal.
O aspecto exterior que evidenciam estas casas, estes espaços e o seu adorno artístico não é indício de grande cuidado, nem do melhor nível de atenção.
“O que está bem, bonito parece”, é uma observação simples, com a vulnerabilidade natural de tudo o que diz o povo, mas nem por isso verdade menos respeitável.

O que é que funciona mal, ou o que é que não funciona ali?

Numa data posterior, continuarei a observar, com mais detalhe, os simples aspectos exteriores da degradação e do descuido que são evidentes.
Dentro, ao âmago das questões, porventura mais candentes, não me compete chegar.
Cada um que assuma as suas devidas responsabilidades.



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