Domingos de manhã passeados com vagar, fotografias, impressões e confidências feitas à cidade de Coimbra, suas casas e seus casos, seu rosto vivo, suas lágrimas e sorrisos.

Acerca de mim

17 junho 2007

Passeio na Serra da Lousã, almoço no Talasnal

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Fomos hoje passear à Serra, andámos por estradas incríveis e o que nos valeu foi a maravilhosa chuva que criou aquelas cortinas imensas que nos permitem deixar de ver os pequenos e vulgares acidentes da paisagem, e passam a deixar-nos entender toda a incomensurável natureza das coisas.

falta foto, desculpas
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As serras, as verdadeiras serras, são todas da minha infância.
Saturadas de aromas e de mistérios não cabiam nos mapas, não tinham fim nem princípio.
A minha terra estava cercada de serras por todos os lados, por imensos vales ao fundo dos quais havia sempre um rio fresquíssimo que corria ali ao sabor da eternidade.
Uma ponte era como um grande brinquedo medonho, uma caixa construída por grandes vigas de ferro de várias espessuras, com enormes cavilhas arredondadas e pavimentada com alcatrão todo esburacado.
Apoiava-se em enormíssimos pilares de pedra ovalados e quando as barragens foram construídas toda aquela imensidade de ferro pintado de tinta toda velha e encarquilhada começou a ser engolida metro a metro, centímetro por centímetro, pela água que subia implacavelmente.

Havia uma pequena localidade que ia ser engolida, e no mercado, na loja dos Senhor José Matias e à saída da Igreja toda a gente falava no enchimento da barragem como se fosse a mais extraordinária tragédia de todos os tempos.
Lembro-me de ver, um Domingo de manhã, um homem que estava deitado na cama, numa certa casa à beira da estrada, que estava a ser engolida pela água.
Fui lá com o meu avô, que foi levar algum alento e coragem àquele homem velho e desesperado que não queria abandonar a sua antiga e modestíssima casa.
As pernas da cama já estavam bem metidas dentro de água, e todos nós sabíamos que ela não ia parar de subir, porque tínhamos feito um risco no alcatrão e passado uns minutos o próprio risco já tinha sido coberto.

Quem jamais poderia esquecer-se de acontecimentos tão espantosos como estes, de lágrimas tão incómodas e de palavras tão desesperadas como as daquele homem vendo o seu mundo sumir-se debaixo de um rio que crescia impiedosamente numa plácida e soalheira manhã de Domingo?
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A Serra da Lousã é assim, entre moinhos que não são de Cervantes nem servem o combate de delirantes Dom Quixotes. Há pequenas aldeias onde vivem estrangeiros, retirantes da Europa central que rejeitaram sua glória e seu método. Fazem-me pena as suas crianças, portugueses de futuro incerto pelo isolamento e pela estreiteza de horizontes. Contradições nada condizentes com a altitude e a paisagem....A Serra da Lousã, como todas as outras, tem imensas histórias contáveis dentro da desmedida do seu dorso castanho carregado de mil e muitos verdes, todos diferentes.
Parece-me muito, mas muito mais pequena que as serras da minha infância.
O seu multifacetado carácter de serra de muitos episódios e acontecimentos, é reforçado pela variedade da sua flora, pela variedade de paisagens que dentro dela se desdobram em cenários tão diferenciados.
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Para mim é, por assim dizer, uma serra feminina.
As serras da minha meninice eram imensas e viris, cobertas de verde escuro, cheiravam imenso a resina e a flores silvestres.
A única coisa que lá havia, além do Rio Zêzere e da Serra da Santa onde o povo fazia promessas, era a imensidade de vales profundos, a modéstia inquietante de casas escondidas por vales soturnos, homens de mãos grossas e mulheres baças de olhar triste à espera do vapor que os levasse para além do mar, para as terras da promissão.
E calor ofegante no verão e nuvens cinzentas muito escuras carregadas de chuva, no Inverno.

De ralis, moinhos de fazer electricidade, antenas disto e daquilo, parapentes, rapazes desvairados cavalgando motas, nada de nada!...
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A torrente de águas cantantes, os fetos, as flores, a variedade amável dos verdes aqui estão que não me deixam mentir...
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Havia uns amigos meus que tinham casas no Talasnal.
Eu sempre gostei duma pequena brincadeira ingénua dizendo que são autênticas privilegiadas as pessoas que habitam no “telejornal”…
Quando faço esse simples jogo de sonoridades a solicitude das pessoas é enorme:
− Olhe que não é telejornal, é TALASNAL!...
Viver no telejornal, aliás, é mal que não se deseja nem ao vivo inimigo!...

A chuva, a minha sempre desejada amiga, afasta muitos visitantes, deixa as coisas mais iguais a si próprias, mais lavado o ar, mais apetecível o respirar fundo, sem pólenes nem poeiras que no ar seco abundam.

No telejornal, perdão, no Talasnal, espera-nos um conhecido restaurante impensável nas serranias do Zêzere de antanho. Come-se bem e pode-se conversar. Como estamos sozinhos fazem o favor de desligar a música.

 

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Restaurante Ti Lena, no Talasnal; de Lisete e Amélia Dias; Tel.: 93 383 26 24; 91 704 56 08
(anúncio completamente grátis, em prol da interioridade da Serra/Mãe, posto aqui por nos ter sabido bem o almoço)

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A cultura do barulho

A música, o barulho, uma coisa que se insinua por tudo o que é buraco em todo este país, num pavoroso ódio ao maravilhoso silêncio.
Prospectos de luxo anunciando qualidade de vida, natureza e belas paisagens.
E por aqui e por acolá, motas rugindo, jipões roncando, alto-falandes produzindo “música”, ou pseudo-música, em ritmos frenéticos sem cor nem gosto;
Barulho, é o que é.
Onde menos se espera…

Abaixo a cultura do barulho, viva a boa música ou − na melhor das hipóteses − a subtil respiração da floresta, irmã do silêncio − que é de oiro!...


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Ora aqui temos uma aldeia de xisto completamente diferente de uma imensa quantidade delas que pelo interior serrano nos mostram a angústia dos seus telhados afundados, as janelas e portas escaqueiradas pela ventania da desertificação. Um luxo onde vivem senhores doutores de Coimbra que compraram no bom tempo e que restauraram amorosamente o seu refúgio - cofre de silêncio metafísico...
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O Candal, regalo e paragem de retratistas. Por debaixo da ponte corre outra torrente de água fresca. Bendito Junho!...
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12 junho 2007

Algures, para os lados do Calhabé

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Coimbra também tem os seus Jacarandás

(vai com letra maiúscula porque me parecem merecer as árvores nome de gente: substantivo próprio!...)


.falta foto, desculpas

.O estádio de Coimbra começou por ser simpático a algumas pessoas que por ali passavam de autocarro. Como o viam de relance, em passagens breves, chamavam-lhe até “o disco voador”. As suas formas ovaladas, de cinzento alumínico, sugeriam esse mito cinematográfico de contornos evanescentes.
Hoje tornou-se naquilo em que se tornam todas as outras coisas: suporte publicitário, escaparate de anúncios, plataforma para os infatigáveis esforços do marketing!...
Os monumentos do passado oferecem-nos as suas pedras impregnadas pela usura do tempo. A esse metal nobre chamam os versados em arte histórica: a “patine”.
Enobrece mais que o cabelo branco e que o oiro reluzente.
Alguns falsários especializam-se em fabricá-la.
Mas só o tempo, “esse grande escultor”, pode genuinamente acrescentá-la aos objectos que resistem ao passar dos séculos.
E o “disco voador”? Que será feito do “disco voador” daqui a um solitário século; daqui a um insignificante centenar de anos?...
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Uma estátua levanta-se diante de mim.
Como sempre a vi mais ou menos de longe, sempre me pareceu figurante de um romance alheio, personagem ensimesmada simulando a marcha para o destino incerto.
Visto assim de perto, o bronze de que é feito adquire um peso, uma soturna gravidade que me mete medo.
O pretinho que vai lá em cima, às cavalitas do soldado, fica quase invisível por efeito do maciço soco de pedra. A espingarda, não!...
A espingarda, vista por quem passa no chão é a verdadeira e principal protagonista da escultura. Não está apontada para nós, mas sentimos que pode disparar a qualquer instante, produzindo um estampido medonho.

Não é por isso, contudo, que aqui está a foto. É a inscrição (apaixonada…) que me inspira.
No soco de pedra uma frase:
ADORO-TE MITÉ
(assim de chofre, sem ponto de exclamação nem reticências).

A minha categoria de cidadão completamente desprovido de defesas perante a irredutibilidade dos afectos, cai de joelhos perante a evidência universal dos impulsos românticos.
Ignoro por inteiro que género de intenção possa ter estado na origem de tão enorme grito de alma.
Conspurcar um monumento é um crime punido pelo artigo xis do Decreto Lei ypsilon do ano tantos do tal, dirão alguns. Cem por cento de acordo, tudo bem!...
Mas a vontade, a irreprimível vontade de exprimir um desejo assim, tão rente às águas como um grito desesperado do homem que se afoga, tão desesperado como o pedido de socorro de alguém envolvido pelas chamas de um incêndio: um grito de desejo assim
ESTAVA LÁ ANTES, há milhares de anos, IMPRESSO NA ALMA DE QUEM GRITA!...

ADORO-TE MITÉ!...

Não sei se me envergonhe de dizê-lo, se me empolgue ao confessar-vos:
De cada vez que ali passo e leio a frase, aperta-me a garganta um indizível sentimento de comoção.

Esse desejo originário, sei lá, de que irrisório impulso de transgressão, arrasta consigo – não obstante – a representação simbólica dum possível drama de contornos indefiníveis.
Pode ser um grito de violência atávica. Mas pode ser da mesma forma um apelo da mais pura e cristalina afeição; lágrima solitária e diamantina dum arrebatado coração trespassado.
Vá lá saber-se como e quando?!...
Vá lá saber-se porquê?!...

Ao singelo autor da inscrição dedico, em lágrimas comovidas, “o soneto da fidelidade” de Vinicius de Morais:


De tudo, meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive) :
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


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11 junho 2007

As fotografias que não tirei ficam como lamento de mim próprio, cidadão incauto de um mundo aflito

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Passo pelas grades de um jardim de infância.
Sou atraído pelo galrear alegre das crianças, pelo irresistível apelo da sua pureza de alegria e juventude.
Puxo da minha máquina/bloco de apontamento e tiro duas fotos.
Ai de mim!.... Oh infeliz, oh réprobo, oh mal aventurado!...
Sou rodeado instantaneamente por um grupo de vigilantas, cheias de zelo proibitivo e de argumentos esmagadores.
- Está bem, desculpem, está bem, eu prometo que não torno!...
Apaguei as fotos (duas fotos!...) ali logo na presença enérgica da única vigilanta que sobrou para dialogar (desconfiada e azedamente) comigo.

Se eu fosse criminoso preparando um roubo de crianças, teria fotografado de longe, à socapa, com uma lente de longo alcance. E se quisesse mesmo roubar, para que diabo ia fotografar antes???...
Se eu fosse fotógrafo profissional namorado da prima do vizinho de não sei quem, ia lá dentro e podia fotografar os meninos todos, com nome e morada, e os papás até me pagavam.
Não sei se isso me daria direito a aprisionar o corpo (ou a alma..) deste ou daquele menino.
Entre fotografar um bando de crianças vestidas todas de igual, anónimas no vozear cristalino da sua alegria colectiva, e roubar uma delas, levá-la para longe de avião, sumi-la do doce afago de seus amorosos pais… vai uma certa distância!...
O que ressalta de tudo isto não é o zelo de quatro ou cinco vigilantas, nem o perigo real que a situação envolve.
O que ressalta é a desconfiança radical, a vulnerabilidade das pessoas isoladamente, os estereótipos duma coisa que se não sabe, mas se pressente e é esmagadora.
A raiz do medo em suma, a planta funesta que seria desejável extirpar do coração do mundo, a golpes de ternura e de justiça; a golpes de paz e de amor pelo próximo.

Devoradores de telejornais, aceitamos placidamente todas as reportagens indiscretas (frequentemente obscenas e até imorais) da televisão.
A televisão é o poder.
Está acima de todos os outros “observadores” da realidade.
Pode entrar sem bater à porta, surpreender os pobres na sua vergonha de modéstia, os doentes no seu desconforto doloroso, aqueles que choram os seus mortos para exibir indecorosamente a sua dor e o seu irreparável desgosto.

Um rapaz como eu não pode assomar-se a um jardim infantil, comovidamente escondendo a lágrima saudosa de seus netos, sem que as eficazes vigilantas vejam em mim o pedófilo ameaçador, o raptor iníquo, o infamante violador.

Oh pobres almas, Oh triste mundo!...

04 junho 2007

Passear Coimbra foi passar um fim-de-semana a Lisboa

Passear Coimbra foi passar um fim-de-semana a Lisboa.
Significa isto que “a cidade” é, mais do que um conjunto de lugares, um encadeado de vivências e percepções.
Esta e as outras Coimbras (porque há muitas: todas iguais, todas diferentes, como as pessoas que nelas habitam) encontramo-las onde soubermos e onde nos seja possível estar e aprender convivendo.
As cidades são amores difíceis.
Impõem-nos uma disciplina de dedicações múltiplas: um querer sabê-las, um querer vivê-las à medida dos meios de que dispomos.
E tempo que permita construir a memória.
E vozes que se cruzem com a nossa.
Mais do que morarmos nelas é necessário que morem elas em nós e tenhamos o privilégio de conhecer a suas múltiplas faces, as mais hospitaleiras e felizes, ou as mais contraditórias e dramáticas.

Na Cervejaria Trindade pode fotografar-se à vontade. Eles lá sabem porquê! (ver adiante, texto sobre os burocratas anti-imagéticos do Metropolitano de Lisboa)

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Os grandes hipermercados da arte e da cultura, parece estarem cansados.
As políticas orçamentais (Oh, Deus meu, que de fortunas se poupam neste país em cultura e artes − até me espanta que haja deficits!...) fazem com que certas casas outrora repletas de acontecimentos estejam frequentemente inertes ou a meio-gás. Outros locais, por seu turno, prometem bem mais do que aquilo que deveras dão. (Isto é, não quer dizer que se gaste menos; gasta-se é doutra maneira, com outras coisas e com outros "protagonistas", como sabemos, não raro, até muito mais...)

É tempo, portanto, para revisitarmos aquelas coisas que são sempre novas, ou seja: as que fazem parte da cultura perene; lá, onde mergulham as raízes da memória colectiva.

Do terraço do zimbório da Igreja de Santa Engrácia, também oficialmente Panteão Nacional, olhando muito para lá de Santa Apolónia, da Madre de Deus e de Xabregas, descortina-se aquela ponte compridíssima que tem o mesmo nome dum dos homens que mereceu cenotáfio (ou memória de corpo ausente) no mesmo Panteão: Vasco da Gama!...

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Por este tempo, em Lisboa, é quando florescem as coleantes árvores da flor azul.

São mais que bonitas: enfeitiçam a paisagem com o sua cor exótica atrevidamente tropical, que não é tão serena nem tão profunda como o azul do céu; o que não é para admirar porque nada há que possa comparar-se à gloriosa profundidade do céu.

A árvore das flores azuis, que em Lisboa aparece ao mesmo tempo que a Feira do Livro, sabe surpreender como poucas; até o seu nome, inventado pelos Índios da Amazónia, é colorido e apetece dizer: Ja-ca-ran-dá!...
Para dar um aspecto de cultura a isto se dirá que o Jacarandá mimoso, ou Jacaranda mimosaefolia, é da família das Bignoniaceas. Mas mais não digo que me posso enganar.


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Sob a cúpula de Santa Engrácia repousam os restos mortais de figuras mitológicas, ressoando pelo majestoso espaço acordes sempre impressionantes de Mozart e de Beethoven, intervalados aqui e ali pelo timbre sumptuoso do canto de Amália.

Humberto Delgado, Marechal, repousa solitáriamente numa sala, austera como todas.

Amália é a única figura acarinhada com mimos permanentes: flores, mármores passados a pano e orações de íntima veneração.
A grande, a solene Amália, que bem me lembro do seu vulto negro sereníssimo, antes de entrar em palco, repousa na sala dos escritores, onde, nas horas secretas, sempre pode conversar com Garret, Junqueiro e João de Deus.

Na área mais nobre do templo, nos seus braços de cruz grega, ali estão os cenotáfios de Camões, de Nuno Álvares, do fero Albuquerque, do universal Gama e do misterioso Infante patrono das navegações.


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Olhando para poente é o poderoso edifício do Mosteiro de São Vicente de Fora que pode ver-se, e que vamos visitar de seguida.

À direita, o Campo de Santa Clara (vulgo Feira da Ladra), que outrora era espaçoso quando por lá passava e que agora parece que encolheu, como as larguíssimas e acolhedoras ruas onde brincávam os miúdos, feitas agora exclusivamente pistas de aceleração e estacionamento.



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Nos largos corredores de São Vicente de Fora está, desde Junho de 1999, uma surpreendente e magnânima exposição de painéis de azulejos!...

O edifício, já de si, é riquíssimo nessa modalidade de expressão artística, com escadas, corredores, claustros e muitos outros espaços ricamente cobertos por milhares e milhares de quadriláteros vidrados de cerâmica, pintados a azul e branco.

Agora está lá uma espantosa mostra de azulejos recuperados ilustrando as célebres fábulas de La Fontaine.

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Uma ávida curiosidade torna curto todo o tempo que lá possa passar-se de visita.

Algum desânimo ressalta da pouca divulgação e duma certa, digamos, modéstia da realização.
Catálogo, não há. Ou está esgotado, o que dá no mesmo.
Informou-nos um vigilante que “foram os Franceses”!...
Levaram tudo, porque La Fontaine lhes diz muito.

Mas os azulejos são “nossos” e a exposição está para ali, em todo o seu esplendor, faltando-lhe a orgânica e a divulgação de um enorme e, repito, surpreendente acontecimento artístico.

- Para quando a reedição do catálogo?...
- Ah, isso não sabemos!... A culpa é dos franceses: levaram tudo!...


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Este é um de trinta e sete painéis que documentam de forma opulenta as fábulas de La Fontaine. Neste caso: "A águia e a pêga".

Uma frustrante e desmoralizadora visita aos azulejos do Metropolitano

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Domingo de manhã aponto para um objectivo muito apetitoso: uma visita com vagares e olhos bem abertos à estação do Jardim Zoológico, decorada com temática a propósito em azulejos da autoria de Júlio Resende.

É um encantamento.
Todo o espaço, paredes e até o próprio chão, estão recobertos com mil e uma sugestões que nos levam de visita ao esplendor da selva. A calçadinha à portuguesa vem fazer companhia aos azulejos, acrescentando sugestões de passear no verde selvagem, em veredas e figuras que se colam aos nossos passos, convidando-nos a reviver uma desejada infância contornando por aqui, correndo por acolá.

Uma selva perigosa, cheia de susto e de animais ferozes? Não!...

Esta selva tem tudo na cor, no espanto, no canto musical das aves e no seu esvoaçar aberto de penas macias e grandes esperas ao poente.
Uma arca de Noé com flores e todo o género de adereços naturais ali, onde é fácil esquecer que estamos debaixo da terra, passando os comboios de tantos em tantos minutos.

Uma certa distracção provinciana, ou o entusiasmo de pensar que o mundo − nem que seja por instantes − pode deixar de ser aquele sítio chato em que o cidadão se não é tramado assim, é tramado assado, impele-me a olhar livremente, puxando da tal maquineta fotográfica com que faço este “passear Coimbra” e vai disto:
fotografia para aqui, fotografia para acolá, flash quando é preciso, com toda a alegria e sem temor!...

O pior, é o mais mau!
Há dezenas de anos que ando de Metro em Lisboa, nunca vi um daqueles Senhores fardados chamar a atenção de quem passa para os azulejos:
- Meus Senhores, reparem só um instantinho, temos aqui uma obra de arte para mostrar a toda a gente: Vejam só estes azulejos, uma maravilha!...
Nunca, jamais, em tempo algum.

Mas naquele Domingo de manhã lá veio não um, mas dois fulanos (um à paisana, primeiro, outro fardado, depois) dizer-me que não podia tirar fotografias (“…por causa dos direitos de autor!…”)

Direitos de autor? Umas tanas!...
Pelo que lutam estes extremosos “defensores de direitos” é por uma noção redutora e burocrática da cultura. Uma cultura com açaimo, onde os direitos são os de não olhar para as coisas, afirmando uma posse sem horizontes de objectos que se não estimam, nem divulgam, nem amam.

Bem como toda a obra do Metro (que a princípio toda a gente chamava “o centímetro”, porque era pequenino) também ajudei a pagar os painéis. Para não falar nos bilhetes e passes, que já paguei muitos, para poder viajar de Metro, um sítio tão público que é como se estivesse ao ar livre, como nas praças e ruas do meu país!...

Havia, apesar de tudo, uma tonalidade hesitante no recado repressivo dos fulanos que mandaram parar com as fotografias. Estariam com pena das minhas ingénuas fotografias, ou estariam com vergonha de importunar um cidadão em pleno exercicio dum legítimo encantamento?!...

Vá lá saber-se...

Alguém os deve ter mandado.
Alguém que nunca deve ter olhado para os azulejos rachados, manchados, sujos, partidos e descolados que já por ali abundam!...

Defesa dos direitos de autor? De que autor?

Eu sou autor do meu olhar e sou cidadão deste país e não devo nada ao Metro, nem aos Administradores que ganham tanto que nem devem precisar de andar de Metro, mas mandam dar ordens sem pés nem cabeça que estragam uma manhã a quem tenha um minuto de alegria dourada tirando recordações de uma parede em Lisboa, para poder mostrá-la aos amigos em Coimbra.

Direitos de Júlio Resende? Hum, duvido muito!...
O artista, se soubesse o amor com que olhei a obra de sua autoria, ia regalar-se, tenho a certeza.
E as fotos de recordação, ia vendê-las, não querem lá ver?!...

Oh Senhores Administradores, se aqui estivesse a grande poetisa Natália Correia dir-vos-ia:
“…Oh esfomeados do sonho
A Poesia é para comer…”
…
E eu acrescentaria:
“…Oh burocratas néscios
O que é belo é para toda a gente ver!...”

06 maio 2007

O Tovim, Coimbra, dramas urbanísticos como há muitos...

É favor notar:
  • Este texto foi escrito na sua quase totalidade em 1999, e algumas coisas já estão ultrapassadas, infelizmente, nalguns casos, para pior.
  • A fotografia acima, tirada há uns bons dezasseis anos, mostra os meus dois filhos na parte detrás da casa onde habito, lugar ainda cercado por espaços toscamente revoltos, mas ainda com árvores, e algum espaço para brincar com os amigos...
Tópicos aqui abordados:
  • Uma apreciação geral da paisagem de Coimbra em geral, e do Tovim em particular;
  • Da incapacidade das autoridades municipais, e outras, em usar para benefício de todos o património paisagístico e espacial desta e de outras terras;
  • Dos inúmeros abusos e faltas de sensibilidade, públicos e particulares, que afectam a fortuna e o viver das gentes que aqui habitam;
  • De como uma coisa bonita se pode tornar feia, se a não tratarmos com amor;
  • De como as crianças daqui vivem tristes por não terem onde brincar, e de como os velhos andam cabisbaixos e sós quase pelas mesmas razões.


A PAISAGEM, O LUGAR, OS HORIZONTES

Esta cidade onde vivemos estende-se por sobre um solo muito enrugado, com vertentes acentuadas, entrecortadas por vales estreitos e, se não fora a largueza dos vales abertos pelo rio (Mondego, claro), ficaria reduzida aos horizontes que lhe permitem os pontos mais elevados, no lombo de cada cabeço ou nos pontos extremos das serranias mais levantadas.
Fazer urbanismo e organizar o solo em condições tais seria um privilégio requintado para um arquitecto que pudesse, ou quisesse, tirar partido das mil e uma possibilidades da paisagística tão intensamente requebrada e de mil maneiras modulada.
Um desenvolvimento precipitado e tosco produz um tipo de acumulação de edifícios que continua a proporcionar até certo ponto, para quem olhar de muito longe, um sentimento de enquadramento paisagístico razoável, um sentido de cidade em expansão dinâmica.
O tecido antigo da mancha rural, as suas hortas e pequenos bosques vai escondendo como pode os aleijões mais gravosos do disparate da arquitectura do pato bravo, ave pouco adequada para estigmatizar aqueles que têm sido designados sob esse epíteto, por ser tão livre e por ser tão simpática.

A IGNORÂNCIA, A INSENSIBILIDADE E A IRRESPONSABILIDADE URBANÍSTICA

Com o acentuar dos erros de distribuição urbanística aquilo que de início poderia ser um regalo para os olhos começa a não enganar ninguém, nem de perto nem de longe. Sobretudo nas áreas onde as taxas de ocupação dos solos têm ultrapassado a medida do razoável, a mancha citadina é já uma parede espessa de estruturas de betão armado, que cortam o fôlego de quem as observa, e reduzem ao desconforto o quotidiano de quem nelas habita. Para aqueles que escolheram residir na margem menos saturada da antiga paisagem campestre, e ao fim ao resto para todos os outros habitantes da cidade, o problema torna-se muito mais do que simplesmente estético, e passa a ser uma questão que lida com cada parcela da liberdade do cidadão, com a saúde e o bem estar da sua família, com o tipo de convívio e o relacionamento que mantém com a comunidade e com a própria natureza. O local onde habito, tecnicamente designável como "urbanização", nasceu duma velha quinta à beira da estrada e talvez pudesse ter sido concebido para nele vigorar alguma qualidade de vida, com alegria e entretenimento para os mais jovens e com a necessária serenidade e paz de espírito para os mais crescidos, se o espaço tivesse sido utilizado de forma inteligente e mais generosa. De acordo, aliás, com a tradição bucólica do espaço rural dos Tovins.

O LUGAR ONDE VIVEU VITORINO NEMÉSIO

A estrada em referência adquiriu depois de para aqui vir o nome enobrecido de um grande cultor da língua portuguesa, Vitorino Nemésio, que aqui residiu num local chamado "os casaréus", e que ficaria à vista da janela da minha cozinha. Da habitação do grande artista conversador apenas sobrou uma modesta porta, actualmente encastada no muro duma luxuosa vivenda. Bem pouca coisa para lembrar o mestre, ou francamente menos do que mereceria o seu vulto criador, atendendo à presença assinalável que teve nesta cidade de Coimbra.

VALE DE CANAS - UM PARAÍSO PERDIDO

Quem há três ou quatro dezenas de anos contemplasse de longe este subúrbio, sem se dar conta da pobreza de muitos dos seus moradores, da carência de infra-estruturas, do abandono das quintas e da tortuosa e velha estrada para Vale de Canas, iria mesmo assim deliciar-se com a vista, já para não falar do deslumbramento que era sentido ao chegar lá acima, à jóia da coroa das paisagens de Coimbra, donde se podem ver as sumptuosas serranias para nascente e todo o enorme vale que desce em abertura até lá para as bandas do mar.
Já eram bem diferentes as coisas há dez anos quando para aqui vim, mas foi meu privilégio ter visto crescer o meu filho mais novo num tal espaço, onde ainda pôde construir um imaginário saudável, ligado à fruição duma liberdade relativa, na companhia de alguns vizinhos da mesma idade. Refiro esta fase embora ela não derivasse de nenhuma espécie de acção organizada pelo homem, antes resultasse apenas do anarquia semi-rural do espaço em torno.

A DES-URBANIZAÇÃO ONDE EU MORO, E AS OUTRAS...

No sítio onde moro, a marcha incontida de obras envolventes, arrastadas, permanentes, numa ocupação sistemática de todas as áreas livres, levadas a cabo sem qualquer respeito pelos habitantes já instalados, uma arrogância dos agentes construtores cientes de que são eles quem tudo manda, sem terem de respeitar nenhuma espécie de regulamento ou legalidade. Tal atitude deriva, obviamente, duma conivência da fiscalização municipal, forçando o cidadão contribuinte a sentir na pele uma lista incontável de inconvenientes que oscilam entre a mais simples e ingénua desatenção ao abuso premeditado e negligente, capaz de causar acidentes graves, conforme pude constatar pela minha observação directa, mais do que uma vez, das próprias janelas de minha casa, sem ter necessidade de sair à rua. Por toda a cidade aliás se estende esse tipo de comportamento. Uma empresa construtora que tenha pela frente qualquer espécie de iniciativa goza, ao que parece, de uma espécie de tolerância permissiva. Pode rebentar passeios, estoirar com o pavimento das estradas, espalhar betão nas ruas, deixar a estrada atulhada com as sobras da sua actividade, areia, terra, tábuas, etc. Os cidadãos são continuamente ofendidos com tais abusos que lhes roubam a tranquilidade, o silêncio, o espaço na via pública, o encurtamento ou ocupação de passeios etc. Não raramente se tem instalado neste local um verdadeiro império do pó ou da lama, sem que nada nem ninguém seja chamado à atenção, como se uns cidadãos fossem merecedores de toda a tolerância, e outras vítimas sem protecção de todas as arbitrariedades. Será a capacidade de fazer obra (e ganhar muito dinheiro com isso) um privilégio prepotente, uma virtude mágica sem rei nem roque?
Pergunta pois o munícipe:
– Haverá leis neste país? Haverá regulamentos nesta cidade? Quem vela por nós, cidadãos apeados de poder? Quem defende a lei? Quem nos governa?
Ninguém, aparentemente, é a única resposta que ocorre a quem contemple criticamente o que se passa.

Sob o ponto de vista cívico, o cidadão anulado pela indiferença, desarmado de capacidade crítica, é um capital cómodo e conveniente de suporte político, disponível para caucionar dualidade de critérios, abusos de poder, favores aos amigalhaços, esquecimentos convenientes e tolerâncias amistosas. Isto, a par de outras coisas mais dificilmente enumeráveis, mas que existem.
Seria necessário reforçar a persistência interessada de quem olha as coisas com o sentido de ver e de todos aqueles que guardam na memória episódios realmente concretos e testemunhados por vizinhos, que permitissem denunciar com clareza que a administração da cidade, onde não peca por incompetência, peca por omissão conveniente, e onde não peca por incapacidade técnico-administrativa, peca na defesa de interesses que não são aqueles que dizem respeito aos cidadãos no seu todo, mas apenas a certos e determinados interesses.
O esgotamento da liberdade espacial, a maximização da ocupação dos solos, a pressão duma lógica exclusivamente ligada ao interesse do empreiteiro mestre de obras, tem vindo a reduzir ao mínimo a liberdade do local onde habito.
Embora sendo uma zona onde se vão erigindo também vivendas de alto luxo e de preço elevadíssimo, não pode afirmar-se de jeito nenhum que a área envolvente possa vir a ser no mínimo aprazível. Antes pelo contrário.
As crianças do futuro que aqui nasçam terão de fugir para longe, em busca dum qualquer espaço disponível onde possam construir o seu imaginário e inventar o seu gosto de viver.
Atendendo a que nesta área se acumulam em promiscuidade urbanística velhos casinhotos de gente muito modesta e residências de velhos habitantes do local com festa do Santo, procissão, foguetes e tudo, a par de prédios de andares com milhares de condóminos profundamente desenraizados que timidamente se ignoram uns aos outros e algumas vivendas de luxo de altíssimo custo, a colina – vista de longe – começa a ter o aspecto visualmente insuportável de empastado incaracterístico com irrecuperável mau gosto.
Pior do que isso, oferece todos os inconvenientes duma situação irreversível, de recuperação impossível para o uso moderno e confortável do espaço, afastado ainda por cima de normas de funcionalidade e segurança, gestão de recursos turísticos, paisagísticos, patrimoniais, naturais, etc.
O presente depoimento não é um levantamento sistemático dos erros catastróficos que têm sido cometidos por toda a cidade no assalto precipitado ao solo urbano. Ao ponto em que as coisas chegaram já não é necessário um arquitecto paisagista para fazer esse trabalho, embora seja evidente que um estudo crítico adequado deve ser feito por especialistas que os há disponíveis e competentes para tal.
A Câmara Municipal de Coimbra tem tido durante anos e anos ao seu serviço especialistas nessas matérias e, nem este, nem os mandatos anteriores pode eximir-se às inerentes responsabilidades que, a meu ver, adquirem perfil de atentado patrimonial gravoso, que a história julgará com todo o rigor e consciência de prejuízo.

O sentido da ideia de património está geralmente ligado ao espaço histórico e às zonas monumentais de aglomeração urbana antiga.
Para mim esse conceito é demasiado estreito, porque julgo que todo o espaço da cidade, toda a natureza que a envolve e rodeia, o próprio sentir e a liberdade dos seus cidadãos são elementos patrimoniais essenciais, estruturantes da memória, da cultura, do civismo e da paz social.
O depoimento presente foi iniciado num dia em que senti o desejo de esquecer a rua tortuosa e saturada de automóveis em que habito, a rua dos passeios novos de dois palmos de largura, que tem um belo nome de poeta e de escritor: a Rua Vitorino Nemésio.
O relatório atento e cuidado sobre os oitenta metros de rua que estão de fronte de minha casa e se vêm da janela da minha cozinha daria para fazer um enorme levantamento de problemas de administração autárquica, infelizmente aplicável a um sem número de outras ruas, com as mil e uma variantes possíveis de disparate, desperdício e inconveniência.

A ESTRADA PARA VALE DE CANAS, O CHOUPAL, AS BENDITAS ZONAS VERDES...

A rua é, no seu traçado e na sua origem, muito antiga. Estou em Coimbra há somente trinta anos, o que não dá para contar coisa de jeito da sua história, que há-de vir de há muito mais tempo.
Há trinta anos iria enganar-se quem pensasse que seria brilhante o seu futuro promissor.
A colina semeou-se de casas bem em cima das ruas alcantiladas e tortuosas, metidas em cima de velhos carreiros ou cortadas na lomba dos cabeços, algumas com inclinações de meter medo, e ainda hoje sem tratamento adequado de águas fluviais, sem passeios seguros, sem prazer nem conforto para quem nelas vai de carro, sem calma nem segurança para quem nelas vai a pé.
Sobra, entre outros, o problema de não haver saneamento básico em muitas das suas áreas e de planificação urbanística atenta ou competente, nem vestígios dela.
O espaço privilegiado que é a Mata do Vale de Canas, tem vindo a sofrer do mesmo tipo de atitude negligente que vitimou o Choupal.
Que o digam os praticantes de BTT que sobem pela Rua Vitorino Nemésio até à Rua do Bombeiro Voluntário, onde se arrumam magníficas vivendas donde se desfruta a paisagem agora quase totalmente subtraída ao visitante casual.
Não há, para quem queira beneficiar desse tesouro, quer para Nascente quer para Poente, um único sítio onde se possa parar com sentimento de desafogo e prazer, circunstância agravada mais recentemente pelos tenebrosos incêndios que infligiram à antiga mata danos irreparáveis.
Tenho o hábito de ir a essa zona com visitantes de fora, sempre que sou procurado por forasteiros.
Gostaria de poder referir o conjunto de considerandos que me foram feitos por um arquitecto paisagista alemão e respectiva esposa, com os quais contemplei há algum tempo atrás, a magnífica paisagem até à Serra da Boa Viagem, num curto lapso de estrada, já na descida, onde o estacionamento é perigoso, o espaço exíguo e a paisagem, em todo o seu esplendor, parece estar desta forma entregue à insensibilidade negligente e ao desprezo mais absurdo.
Lá em cima do antigo miradouro de que nos era permitido ver as sumptuosas e surpreendentes serranias para o lado Nascente, uma cortina espessa de eucaliptos tinha entretanto crescido, cortando a visão pela totalidade, e frustrando a promessa que fizera aos visitantes.
Por todo o pequeno espaço ajardinado reinava um silêncio soturno, uma ausência de calor humano a que uma ou outra presença atípica poderia sugerir uma ocupação do espaço pela marginalidade, como é o caso no Choupal.
Faço aliás referência a uma visita ali efectuadas por mim, há anos, com um visitante de fora curioso de conhecer o mítico local, em plena luz do dia, durante o qual observei um clima completamente diverso daquele que era usual há cerca de 20 anos, quando ali praticava desporto com a minha família.
A presença intrusa da marginalidade mais suspeita estendia uma sombra de inquietação sobre o local, que desde então nunca mais incluí no meu percurso de visitas...
Como está mais actualmente, desconheço inteiramente.
Ou seja, nem a utilização dum património paisagístico que me parece do mais elementar bom senso preservar e desenvolver como riqueza colectiva e produtiva parece ter passado pela cabeça de quem governa a cidade.
A Mata do Vale de Canas nada tem ganho em segurança e aprazimento. Ao que me consta pelo saber de experiências feito de meu filho mais novo que para ali ia andar de bicicleta, são agora alguns atrevidos dos desportos ditos mecânicos que põem em risco os ciclistas e passeantes apeados.
De lugares povoados de utentes pacíficos, dum qualquer programa bem estruturado de utilização pública, de meios de transporte fáceis de acesso (com excepção para o bendito automóvel, para o qual é escasso o espaço de estacionamento) de facilidades e equipamentos aquecidos pela presença humana organizada, nem vestígios.
Falando de ciclistas, bem me custa vê-los passar à minha porta, vergados pelo esforço, a ter de respirar o gasóleo dos camiões e, pior do que isso, sujeitos a serem vitimados por um desses mastodontes, ou por outras máquinas mais miúdas, mas tripuladas por gente apressada e impaciente, ansiosa por desembrulhar o encadeado de curvas a toda a pressa, custe o que custar, pondo em risco a segurança própria e alheia.
O facto traz-me à lembrança a realidade de países muito ricos que poupam fortunas em combustíveis, poluição e concentração automóvel (países fabricantes de automóveis, note-se) infra estruturando vias de comunicação exclusivamente para ciclistas por tudo quanto é lado, nas cidades e fora delas, para fruição turística, melhoria do estado de saúde dos cidadãos ou pura e simples solução do problema dos transportes.
Entre nós, país importador de gasolinas e automóveis (e que fabrica bicicletas, note-se) esse tipo de preocupação não passa pela cabeça de quem manda (mal) e planifica (pior).
Quanto a bares, muito cá para baixo, inaugurou-se há tempos um, nas minhas vizinhanças, que nasceu paulatinamente de dentro do miolo de uma casa velha bem a cavalo da tal estrada estreita e convulsa.
E é ver as noites, com carros a esmo por cima de toda a folha e em estacionamento arriscado, proibido e incómodo.
Será que os presidentes e vereadores que aqui passam, de regresso às suas vivendas e montados nas suas viaturas oficiais nunca repararam nisso?
Acham muito bem?
Se sim é, daqui lhes remeto os meus parabéns.

A RUA VITORINO NEMÉSIO E AS SUAS METAMORFOSES

A tal estrada velha e antiga, feita agora rua "urbana" tortuosa e difícil, também utilizada às vezes pelas noites pelos praticantes dos desportos motorizados, não tem infra-estruturação que aguente a progressiva carga que sobre ela desaba, dia a dia. São camiões e camiões carregados de materiais de construção, e certamente milhões de toneladas de desaterros para cima e para baixo.
A estrada, nascida por por via dos acasos da sua antiguidade, foi-se moldando às encostas e ladeiras que a constrangem. Não fica por isso a dever nada a ninguém, não podendo por isso pensar-se que, se já não serve bem de há muito os milhares de veículos que por aqui passam, não terá com certeza futuro, porque não pode tê-lo.
Não há notícias contudo que lhe dêem esperança de melhores dias, ou ajudas concretas na planificação de alternativas.

UM PASSEIO, FRACO REFÚGIO PARA ASSUSTADOS CAMINHANTES

Alarmado para inércia de planificação para a segurança, tomei a iniciativa de sugerir para a rua onde habito a construção de um passeio, que minimamente salvaguardasse as condições de circulação pela mesma de passeantes apeados, dos que não passam montados em camião, desconfortavelmente apertados em autocarros ou nos milhares de automóveis que incessantemente por aqui circulam.
Lentamente foi avançando o processo de acumulação das assinaturas, lutando contra uma desconfiança e uma falta de convicção cívicas de bradar aos céus. Primeiro é lamentável que as pessoas tenham que recorrer a processos de solicitação pública e reivindicativa para disporem de algo que é elementar e deveria ter sido pensado e executado antes de tudo o mais por aqueles que têm o dever e ainda por cima são pagos pela comunidade para isso mesmo.
Depois, é necessário o bater de porta em porta que penosamente é levado a cabo por alguns vizinhos de boa vontade, arrostando com a fria incredulidade do vizinho pessimista, afeito à incompetente apatia e indiferença dos serviços e autoridades competentes.
Entregue o abaixo-assinado, devidamente fundamentado e apoiado com fotografias perfeitamente elucidativas, longuíssimo processo de espera tem lugar.
Sem que os residentes tenham qualquer espécie de conhecimento do facto decisório e de qual teria sido o efeito real da sua modesta solicitação, surge finalmente anunciada a construção do passeio em espaçosos e bem evidentes "outdoors", com tudo bem nomeado e descriminado. Assim fosse espaçosa e desafogada a obra!...
O passeio contudo desanima quem o vê e muito mais quem terá de andar nele pelo decénios que lá vêm.
Nuns sítios dá para ir de mão dada com a namorada ou com a mãe ou com o filho. Noutros só dá para marchar um cidadão sozinho.
Noutros locais terá de se ir ao pé-coxinho e noutros nem dum modo nem de outro. O passeio que por ali vai fraco, de repente, morre.
O poder das evidências dá força à fatalidade de nunca ninguém ter pensado que uma rua, quando nasce, é para todos.
E que num local onde a entidade responsável tem a coragem para licenciar a construção de milhares de casas de habitação, deve pensar primeiro como é que essas pessoas vão viver, e circular e estacionar e conviver e brincar e descansar dentro dumas normas que façam de tais habitantes não apenas pagadores de sisas, licenças, coimas, impostos, taxas (e votos!...) mas cidadãos no pleno uso dum justo e necessário sentimento de liberdade e prazer de existir.
Ou então assumir duma vez por todas aquela decisão que seria a mais lógica, por se ter deixado chegar a situação onde ela chegou: decretar em certas ruas o trânsito proibido aos peões!...
Já uma vez escrevi, há longos meses, aos SMASC, a comunicar algumas razões das que exponho acima. Não recebi qualquer resposta por escrito, forçosamente responsabilizante. Mas fui visitado por um simpático e jovem engenheiro, que cheio de gentileza tranquilizou as minhas preocupações. Quanto à realidade dos factos, permaneceram tal e qual, ou pior ainda.

O BETÃO INVASOR, A FALTA DE LIBERDADE E DE BEM ESTAR PARA TODOS OS CIDADÃOS!...

Nos termos de licenciamento da já referida urbanização onde habito existia um terreno vago, daqueles que são tomados aos proprietários do solo, para efeito de conveniência geral.
Este ere o aspeto do belo arboreto que existia nesse espaço, nessa altura verde, mas degradado e "apodrecendo" por negligência de quem de direito, "para os devidos efeitos"...:
O terreno vago acabou por ser oferecido a uma instituição de utilidade pública que ali instalou uma obra social cuja utilidade não se discute, mas cujas instalações foram arquitectadas de tal forma que efectuaram uma ocupação absolutamente esmagadora de todo o espaço disponível, indo em muitos detalhes certamente para além da legalidade urbanística, do bom senso estético e, sobretudo, para além da dignidade e comodidade do sítio em si, como lugar habitável com um mínimo de prazer e de espaço vital.
Anos que ali esteve aquele espaço vago, não serviu senão para utilização indiscriminada de senhores empreiteiros para despejarem detritos, porem e tirarem terra, lavarem camiões betoneira dos restos de cimento, etc.
É certo que os miúdos que aqui viveram durante os primeiros anos da nossa permanência no local ainda assim beneficiaram um pouco do vago sentimento de liberdade que aquela baldio selvagem lhes pode proporcionar como lugar de algumas brincadeiras.
Nunca tendo sido aproveitado, aliás, senão numa reduzida faixa da sua superfície (na maior parte completamente ocupado por silvas e outras espécies invasoras e até perigosas, por répteis e outros bichos).
Os donos e senhores da cidade não quiseram tornar este pedaço de terreno em nada que servisse a liberdade dos cidadãos, o convívio dos velhos e a necessidade premente das crianças, para ali instalar qualquer espécie de infra- estrutura que servisse a todos, e tivesse esse valor precioso que rareia: o do espaço útil em franqueza de liberdade, jardim, parque terreno de festas ou de jogos.
Nada. Não sobrou nada, nem para passeios, nem para áreas de estacionamento.
A fotografia a seguir mostra-nos a destruição do verde, com um "pequeno" detalhe que teria a sua importância se estivessemos num país onde as leis fossem para cumprir: azinheiras e sobreiros, árvores protegidas, entre outras, foram reduzidas a lenha...
A obra que virá a ser mostrada também numa fotografia a colocar futuramente, representa um esmagamento puro e simples de todo o espaço, em que a única parcela de passeio circundante se viu recortado ao mínimo, encostado a um paredão sem sentido e, ao que se diz infringindo a legalidade dos preceitos construtivos.
De resto, no espaço dito para ser livre (e verde...):
  • Nem um banco para um homem se sentar a ler um livro ao fim da tarde;
  • Nem lugar para um montão de miúdos ter o prazer de jogar a bola;
  • Nem espaço para abrir de silêncio o coração, para pensar ou conversar, para jogos populares, de crianças ou de adultos, como ainda se usa no centro das grandes cidades, vilas e aldeias de toda a Europa;
  • Uma criança que aqui nasça, que queira brincar algures terá que fugir daqui. E já agora, perguntará: para onde?
Europa de Paris tão longe onde em cada bairro há um sítio para os velhos jogarem às bolas, baterem as cartas e palrar da vida, como Deus manda.
Não acaba aqui, nem de perto, o rol das observações possíveis.
Muita coisa poderia dizer, e algumas bem documentadas e apoiadas pelo testemunho de condóminos e vizinhos.

A AVENIDA ELÍSIO DE MOURA, A CIRCULAR "EXTERNA" E ARRANHA-CÉUS À MANEIRA DO TERCEIRO MUNDO

Aqui bem perto alinham-se os torreões descomedidos da Avenida do Insigne Filantropo que foi Elísio de Moura.
Quem foi o urbanista que os plantou ali?
O mesmo que licenciou a colocação de hipermercados bem dentro da malha urbana da cidade? Os mesmos que andaram a prometer à cidade, em mandatos a fio, a construção duma célebre circular exterior, agora finalmente concretizada, mas coxa, por que acaba por desaguar em zonas saturadíssimas em ambas as suas extremidades.
Resultado: a circular é uma estrada comprida, sim senhor, mas é só isso, não preenchendo em absoluto os requisitos que o seu nome sugere, ou seja, de ser um anel eficaz para se circular à volta do aglomerado habitacional, fugindo às suas artérias saturadas, e retirando da malha urbana trânsito que lhe é alheio. Aliás não dá acesso directo nem ao IP3, nem à Auto-estrada de Lisboa Porto.
Não será um dos princípios fundamentais do urbanismo moderno não deixar que se enoendam no interior dos novos bairros habitacionais vias de penetração intensa de circulação automóvel, construindo tais zonas em áreas de velocidade reduzida obrigatória, sem saída para vias de circulação estruturante?
Não é preciso ir nem à Alemanha nem a Inglaterra para ver consagrado este princípio básico. Na nossa vizinha (e tão distante...) Espanha, até nalgumas das mais problemáticas áreas periféricas se vê observada essa regra da qual, em Coimbra, ninguém parece ter ouvido falar nos gabinetes de especialistas e técnicos da Câmara Municipal respectiva.
Regressando ao tema dos arranha céus da Avenida Elísio de Moura, há países na Europa em que este tipo de habitações é inconcebível, tendo-se tornado típico apenas das “megacidades” do terceiro mundo, Filipinas, Indonésia, Malásia e outros absurdos como a cidade do México, São Paulo no Brasil, etc.
Não cabe neste já longo rol de impressões a demonstração dos erros e das inconveniências duma tal "desorientação urbanística", óptimo negócio para os especuladores e péssimo negócio para quem ali comprou andares.
Cito apenas um caso histórico em Berlim de que tenho conhecimento (o "Märkischen Viertels" – 1965, Berlim Oeste) em que uma barbaridade urbanística de prédios de habitação de vinte andares ( muito diferentes dos da Avenida Elísio de Moura, mas dispondo de áreas envolventes de longe muito melhor dimensionadas) foi constituída como exemplo de crime urbanístico lesivo do bem estar e da saúde mental e física dos seus habitantes (o "Betonbrutalismus"), e determinou críticas tão fortes que impuseram uma autêntica repulsa por soluções do mesmo tipo em toda a Alemanha, a partir dessa data.
Mais de vinte anos depois, nem a serenidade dos arquitectos, nem o conselho de técnicos urbanísticos pagos por bons salários, nem o bom senso dos administradores autárquicos (que tanto viajam de avião para tantas paragens do mundo) nada aprenderam ou nada quiseram assimilar da experiência averbada por terceiros.
Rua Vitorino Nemésio, Outubro de 1999
(com algumas actualizações feitas no dia de hoje - 24/10/2006)
Costa Brites





Espírito Santo, uma romaria antiga muito desconfortável e a persistência conformada de quem a faz

.Para passear Coimbra, hoje, não tive de andar muito.
Fui até Santo António dos Olivais, que fica a um tiro de espingarda dos sítios onde moro, santuário de emocionadas devoções, igreja bonita que já foi singela e solitária e que agora é cada vez mais um local descaracterizado, como tantos.

falta foto, desculpas
.Esta imagem é, ainda assim, a visão mais aceitável do conjunto actual em que a finura branca do santuário se vê crescentemente subalternizado pelo empolamento de tudo aquilo que tem sido acrescentado à sua volta, esquecendo nós propositadamente o tolerado e sacrossanto caudal de veículos motorizados ali sempre presente quer em estacionamento quer em deslocação, o seu pesadíssimo viaduto, etc.
As casas velhas caiadas deram lugar a "uma coisa" amarelo-barulhenta com "aplicações" vermelhas e variedade de adornos que são o acompanhamento que poderíamos imaginar de menos adequado para aparecer ali.
As oliveiras, árvores que "dão luz ao mundo" tal como diz a adivinha popular, fazem neste declive coberto de relva pouco verde o favor de ocultar parcialmente essa desconfortável presença, dando a mão a um sem número de razões da tradição cultural mediterrânica e cristã que se associam à índole do local, ao seu nome e aos seus significados.
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falta foto, desculpas.

Há uma vez por ano em que a tradição popular insiste em fazer-se sentir em torno deste santuário contra ventos e marés, pondo de pé a romaria do Espírito Santo que acentua de forma radical a alacridade contraditória vigente em todo aquele espaço.
Ainda assim, penso que a circunstância desconfortável de ela aparecer ali só uma vez por ano nada tem de reprovável, muito embora seja sobejamente clara a pouca adequação do espaço disponível para o efeito.
Para obviar a uma tal questão no seu plano global, teria que ter sido pensada em tempo útil, rodeada de empenho legítimo por quem de direito. Mas isso...
As pessoas que promovem a romaria, aliás, estão tão habituadas à exiguidade, ao acantoamento, à falta de condições, que se assim não fosse a romaria não seria o que é.
O povo que a frequenta, aliás, também iria estranhar e, quem sabe, já nem lhe daria o valor.
.falta foto, desculpas
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Dito o que está dito, faltava-me passar o pórtico, subir as escadas, e completar a visita observando o muito que ali há para ver.
.Chegando lá acima, ao espaçoso terraço que ao lado da igreja se debruça sobre o cemitério adjacente, esquecem-se por encanto todos os aleijões e desacertos que vão cá por baixo atravancando a vista e o entendimento do lugar.
O horizonte que se abre à vista de quem ali vai é tão aberto e magnânimo que não se contam os minutos olhando os longes e apreciando como é enorme a beleza do DIA, cortina passageira de intensa claridade azul que nos esconde da grande noite sideral.


falta foto, desculpas

Fernando Martins de Bulhões, Santo António, os carrinhos de choque e as Farturas da Tânia

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Passei vezes sem conta por Santo António dos Olivais antes das obras feitas, e é como aqui o "apresento" que o "via".
O sítio já não era (nem bem, nem mal) como está no desenho.
Na mente contudo fazia-o assim, de cal branca e céu despojado como certamente se viu no dia em que o "poverello" de Assis se desvestiu completamente perante seu pai Pietro di Bernardone, devolvendo-lhe o resto de tudo o que possuía, para se entregar a outro mundo - o seu mundo.

Não, não tenham medo que não estou a confundir António com Francisco: António é um e Francisco é outro, fazem parte da mesma ordem de imagens que dão corpo a uma certa ideia de catolicismo, terá sido um português, terá sido outro italiano, e não é aqui que se vai querer apurar a verdade verdadinha de um ser "nosso" e de o outro ser "estrangeiro".

Acaso levarão as almas bilhete de identidade ou passaporte para poderem entrar na imensidão dos céus? Acaso haverá por lá "santos portugueses" e "santos italianos"?
Acaso trataram disso os anjos guardiães do céu no dia em que, em sua glória ou suas penas, terão batido António e Francisco, pessoas como qualquer de nós, às portas do paraíso?!...

falta foto, desculpas
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Os carrinhos de choque da minha infância, quando - uma só rara e espaçada vez por ano - a Feira de Março passava por Leiria, não eram propriamente o paraíso.
Mas tudo junto, o carrossel, o circo, as tendas brancas que vendiam toda a sorte de coisas e brinquedos coloridos de barro também, o poço da morte com a sua encenação assustadora, as barracas de tiro com umas raparigas que cheiravam demasiado a perfume e não ligavam a garotos pequenos como eu, se não eram o paraíso, andavam lá perto!...
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No meu tempo, não havia Tânias e a barraca das farturas era só a "barraca das farturas".
Entrava-se lá para dentro a flutuar numa nuvem estonteante de açúcar, canela e massa frita em azeite, e a luz do dia filtrada pela lona colorida da cobertura dava aos rostos a cor de uma alegria surpreendente, inteiramente distinta da que se havia visto antes.
Outro pequeno detalhe confortavelmente inesquecível era o chão de terra frequentemente amaciado pela chuva de Março, completamente recoberto com serradura, que acrescentava ao ambiente modesto apenas mais um aroma riquíssimo, eco distante de pinheirais que não ardiam!...
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falta foto, desculpas
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Este banco pós-moderno de ferro cinzento triste, posto à ilharga da elegante Capelinha do Cruzeiro, que contém o valioso Cristo de João de Ruão, conhecido por "Cristo dos Olivais", nem é confortável para quem nele se senta nem vale uma pitada de açucar das farturas da Tânia.
Quanto a ser a escolha certa para figurar no "equipamento urbano" do santuário de Santo António dos Olivais, creio que nem tira nem põe na imensa variedade de objectos que por ali há, em acerto ou desacerto de embelezamento e comodidade.
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O património artístico de Santo António dos Olivais; talha dourada e azulejos, um casamento português!...

.Uma casualidade feliz fez com que tivesse encontrado uma senhora minha conhecida, activa nas práticas de devoção daquela igreja.
Perguntou-me com toda a simpatia se queria visitar a sacristia, ao que respondi afirmativamente, por saber que é local de ver e rever, pela qualidade e valor do património ali existente.
.falta foto, desculpas
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Tive o prazer de ser apresentado a Frei Adriano Zorzi, religioso oriundo de Itália que comigo conversou com imensa gentileza e me ofereceu um conjunto de documentos informativos e imagens respeitantes àquele respeitabilíssimo monumento.
.É num local como estes que se confirma de modo seguríssimo que a talha dourada e os azulejos azuis e brancos são uma associação prodigiosa que muito ilustrou as artes decorativas em Portugal.
Grandes templos de majestosa arquitectura e decoração sumptuosa não faltam por esse mundo.
A talha dourada e os azulejos azuis e brancos são, contudo, uma ideia muito abundantemente praticada em Portugal que afirmou as nossas artes decorativas num plano de vincada originalidade.
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O património artístico de Santo António dos Olivais está apoiado nesse e noutros argumentos de muito valor, a pintura e o mobiliário por exemplo, que justificam bem uma visita demorada.
.Como ponto de partida para uma tal visita, não esqueçam os meus leitores em casa o lado desperto do seu olhar e o interesse artístico, que são muito mais importantes que a erudição pesadona, às vezes muito chata e completamente inútil no que toca à defesa real e concreta do nosso património de outros tempos, e da arte viva na nossa própria actualidade.
.Digo isso sem deixar de recomendar o site da igreja que está na net
http://santoantonio.com.sapo.pt/

Alerto além disso todos os visitantes deste blog que não adianta nada a um país e a uma sociedade presumirem de cultos e interessados em artes e tratarem tudo o que é património assim tão tosca e desajeitadamente como ali se vê em Santo António dos Olivais, o que de modo sintético se torna claro pelo pouco que aqui fica dito muito resumidamente, e demonstrado pela evidência das imagens.
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.falta foto, desculpas
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01 maio 2007

Passear e falar Coimbra, onde quer que ela seja

Saí hoje de manhã com uma dessas máquinas fotográficas que o consumismo tecnológico prodigaliza, que cabe bem no bolso e não pesa muito.
Cheguei a casa com um bom número de imagens e resolvi depositá-las aqui, com alguns comentários que qualquer um de nós faria, sem pretensões de espécie alguma.
Falar como quem passeia com um amigo, e acrescentar ao exercício matinal conveniente para a saúde essa outra utilidade: dar a ver o mundo a quem não foi também passear connosco, porque terá estado perto ou longe, talvez sem essa liberdade preciosa de poder andar pelas ruas sem preocupações de maior, em paz e desfrutando de saúde suficiente para o fazer.
Oxalá todos os que leiam estas linhas em partes distantes, ou mesmo aqui perto, possam fazê-lo sem mágoa nem desconforto.
Bom dia a todos pois, muito boa disposição e... atenção: continua no próximo número!...

Era assim que eu gostaria de ver-te sempre, Coimbra

Ampla, arejada, espaçosa de horizontes como me pareces quando vista de longe.
Para mais como estás aqui, à beira de serenas águas, com a paz de famílias atendendo seus meninos brincando.
Assim gostaria de te ver sempre, Coimbra: generosa, matinal, transparente e lavada pela fresca chuva da madrugada.



falta foto, desculpas

Ora até que enfim, uma escultura em Coimbra que não dá vontade de olhar noutra direcção...

Um dos achados mais felizes de todo o conjunto que actualmente acrescenta o antigo Parque Manuel Braga, ou Parque da Cidade de Coimbra, é este muro com cascata e repuxos, escultura de originalidade e bom gosto, cujo autor irei procurar saber, porque ainda desconheço.
Vale a pena ir lá, e deixar que a surpresa curiosa nos ganhe, na decifração do engenho subtil que lhe dá vida.
A água canta nas pedras e os véus de gotículas suspensas fazem-nos sonhar com arco-íris.
A pedra do muro, em fasquias, dá-lhe um toque vibrante que reforça a sua qualidade escultórica.
Bonito, em suma. E fresco, o que não é pouco numa cidade com verões tórridos.


falta foto, desculpas

O Tejo e o seu poder, o Douro e o seu mandar, e as águas do Mondego que já não lavam roupa a ninguém...

Naquele espaço, que alguns toscamente já baptizaram como “as docas” de Coimbra, na tendência redutora que nos permitiria uma aproximação vagamente insignificante do Mondego às oleosas águas do Tejo, também veio implantar-se o Pavilhão de Portugal, oriundo de Hannover, construído por uns senhores arquitectos que nem vale a pena dizer o nome porque toda a gente sabe quem são.
É uma sucursal de Serralves em Coimbra (aqui sobrepuseram-se imparavelmente à “competência simplória” das águas do Mondego o ascendente do Douro, suas caves e Ribeira) que por sinal está encerrada por falta de eventos, por falta de artistas, por falta de gente, por falta de ideias e… por uma desastrosa abundância de preguiça incompetente.

O enquadramento da fotografia que apresento é fracota, se pensarmos no edifício em si, e na sua implantação.
Mas a minha ideia foi apenas a de me aproximar dos painéis minimalistas mas amplamente expressivos de azulejos azuis e amarelos que revestem – como eco de vozes claras – duas paredes da notável edificação.


falta foto, desculpas

O oxigénio é imprescindível para o espírito!...

A gratificação para quem atravesse a nova ponte pedonal (com reservas para os resguardos respectivos que parece que foram comprados numa loja de chineses, demasiado technicolor pós-moderno para o entorno paisagístico) é poder ver isto que abaixo se mostra, mas sem ser em fotografia!...
A realidade, como é natural, é mais alta, mais larga e verdadeira, mais profunda e transcendente.
Pode parar-se ao meio e ficar ali a respirar fundo um pedaço.
Leva oxigénio até ao espírito.


falta foto, desculpas

A bicicleta, o prazer das duas rodas que só se tornam pesadas se a estrada é a subir...

Aqui, temos um pequeno desgosto:
Os hipermercados despejam bicicletas aos milhares para as garagens e vãos de escada de todos os cidadãos deste país que gostam de andar ao fresco, depressa e sem terem de pagar bilhete.

A ideia é excelente e, além de não ser poluente, levaria qualquer um para o trabalho com comodidade e proveito muscular... se a ciência urbanística tivesse aplicação entre nós!...
Quer dizer: o país pouparia milhões de contos em combustíveis, os cidadãos poupavam no carrito, ficavam com a perna menos fofa de celulites dispensáveis e... não atravancavam os parques de estacionamento com lata superflua. Só vantagens!...

No fim de semana é o que se vê: bicicletas a andarem por todo o lado, mas muitas vezes sem olhar a peões, como é este o caso.
A ponte é só para peões, ou é pista para ciclistas aos molhos?
Já viram como ele vão, todos "à larga", ocupando o espaço todo?Estava eu a tirar uma fotografia e, mal cuido, ia levando com um risonho e descuidado ciclista em cima!
E de quem seria a culpa? Minha, claro.
Ninguém me manda ter-me levantado tão cedo e estar ali, no caminho de um pelotão destes...

Moral da história: se há muitos ciclistas também teria de haver caminhos para eles poderem andar, sem correrem o risco de ficarem debaixo dos automóveis, nem andarem a disputar espaço aos peões!...

Vá lá explicar-se isto aos autarcas deste país, gente tão enlidada e absorvida por tantos afazeres!...


falta foto, desculpas

O espaço livre, uma solução sempre feliz

Para quem tenha dúvidas do que se afirma em título, é favor atravessar o rio Mondego e ir ali a Santa Clara olhar para Santa Clara-a-Nova, cá debaixo, junto do que foram os laranjais de Santa Clara-a-Velha.


falta foto, desculpas

Santa Clara, Santa Clara, a teus pés corre o Mondego... (e se o feio doesse?)

Atravessado o rio Mondego pela ponte pedonal (cuidado com os ciclistas!...) estão as margens em obras destinadas a uma das maiores indústrias da cidade: as suas Queimas das Fitas!...
O facto é que desde que estou em Coimbra (e já lá vão mais de trinta anos) nunca consegui atravessar o "basófias" com uma tão serena sensação de espaço liberto, vendo as margens ganhar algum verde, alguma ordenação dinâmica.
Ainda não está tudo pronto, mas as obras lá vão indo e outra agradável surpresa para quem vença a ponte é poder atravessar a movimentada “estrada de Lisboa” por uma passagem inferior.
Dali caminha-se até à rua que ladeia o Portugal dos Pequenitos, sempre vibrante de visitantes, até à viela ao lado do Casino da Urca que dá para a entrada dum monumento outrora ruína romântica afundada no seu berço de terras alagadiças, e agora lento estaleiro de obras.

Como não sou um forasteiro olho para aquela lástima e, por força d0 hábito, já nem pestanejo: a passagem para o monumento apresenta um estado perfeitamente “normal”.

A perspectiva da Universidade, vista daqui, fica um bocado destituída do merecido desafogo. Para compreenderem o que quero dizer, segue a fotografia junta:


falta foto, desculpas

Santa Clara-a-Velha, nobre monumento construído em terra branda, que se foi afundando, afundando...

Demoram as obras de restauro, mas lá vão indo, lá vão indo...
Vista deste lado, à luz do Sol e com aquele contraponto de nuvens pesadas lá ao fundo vejam como é absurda a cor rejuvenescida da pedra.
Nem parece antigo, o monumento, com suas telhas laranja novo parece uma vivenda de emigrante abonado.
A chuva e o tempo não tarda que o ponham de novo como era, soturno e grave.

Vá tempo, despacha-te!...

falta foto, desculpas

Nota posterior:

O comentário acima reporta-se à data em que foi escrito e está, felizmente, desactualizado.

As obras de requalificação deste importantíssimo património estão entretanto concluídas e podem (devem!...) ser por todos visitadas com proveito e prazer cultural.


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Aqui fazem-se milagres no metal: Serralharia do Convento!...

Olhando em torno das obras de restauro do convento, ficamos com a alma cheia de sombras.
E não sabemos que dizer deste quadro deprimente, deste desleixo, deste desamparo, desta... pobreza (porque não dizê-lo, se essa parece ser a verdade mais gritante).

A única originalidade que faz rir é o "slogan" oportunista da serralharia.
Não só é "do Convento", como "faz milagres".
Com um louvável sentido de medida esclarece que apenas faz milagres no metal!... O que é grande pena, face à desastrosa situação da paisagem circundante!...



falta foto, desculpas
falta foto, desculpas



Atenção: continua no próximo número!...

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